Faz uma tatuagem em mim. Esboça um desenho, coloca na minha pele algo que vai me marcar para sempre. Escolhe uma imagem bizarra, algo perturbador, algo que fale de esperança, algo que contradiga o que eu faço.

Só me marca.

Rasga minha pele e coloca a tua tinta, borra a minha pele e deixa cicatriz. Deixa tua rasura na minha história e some.

Esconde minhas pomadas, recomenda-me o sol, estraga minha pele.

Marca-me de uma maneira vadia e descuidada.

Sê coeso.

Texas

E daí?

Abasteci minha moto e peguei a estrada. Pequei na demora, devia ter feito isso há muito tempo, mas quem, além de mim, se importa? Agora eu posso ser um cowboy do espaço, um alienígena no deserto, comer porcarias sem me preocupar com meu colesterol e ultrapassar o limite permitido de velocidade.

Agora eu posso ser abduzido no meio da noite. Tomado pela sensação de calmaria e liberdade. Posso também morrer debaixo de um caminhão de frango.

Mas quem, além de mim, se importa?

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“Eu tenho um plano.” – disse ela na mesa do bar.

Aquela seria uma noite longa. Um solstício de inverno em pleno verão.

Vamos voltar um pouco.

A vida dela era uma parábola. Um gráfico de aceleração negativa e a linha estava muito próxima do eixo X. Nasceu prematura, faltou oxigênio. Ela sobreviveu, as coisas se ajeitaram. Nunca foi muito dedicada na escola, mas não era nenhum motivo de preocupação. Mantinha algumas amizades, um círculo relativamente estável. Perdia contato com alguma pessoa e conhecia outra. Seus interesses foram variando ao longo da vida.

“Querem saber?” – tomou um gole daquela cerveja barata.

Depois de uma infância complacente ela entrou em uma fase bastante raivosa. Era um sentimento latente, mas que parecia nunca afetar de maneira duradoura a vida dela. Adolescência. Ter um rótulo ajuda bastante a justificar as besteiras que as pessoas fazem.

As pessoas que estavam com ela na mesa respondiam coisas gerais, aquelas frases que funcionam para qualquer situação. Você não precisa realmente entender o que estão te dizendo. A entonação do emissor já sinaliza a resposta com a qual você deve responder para parecer interessado e manter a outra pessoa falando.

Quando você percebe entusiasmo, responde com “nossa!”.

Quando você percebe tristeza, escolhe entre responder condescendentemente com “acontece…”, ou então mostra compaixão com “poxa vida…”.

Quando a história parecer um relato de algo grandioso e engraçado, ri. Ri alto, mas sem demorar muito. Só demora se a história for mais engraçada do que grandiosa.

Segue o protocolo.

Ela percebeu a falta de interesse das pessoas com quem estava.

Ela ia contar de um projeto de extensão que queria desenvolver. Ela tinha 25 anos, estava fazendo doutorado em jornalismo e queria fazer um grupo sobre divulgação científica com alguns alunos de diferentes cursos na faculdade onde estudava.

Alguém na mesa começou a rir bastante. As outras pessoas olharam, na expectativa de uma explicação para a risada. Era algum vídeo, alguma coisa que foi vista em uma dessas redes sociais. Todos da mesa foram marcados na publicação para que pudessem rir juntos.

De repente, todos os seus projetos, seus escritos, suas falas voltaram ao pó. Não era a primeira nem a quinquagésima-terceira vez que a interrompiam. É difícil seguir o protocolo quando a mensagem tem muitas frases ou precisa de atenção verdadeira do receptor.

É mais fácil sugerir outro assunto, algo mais efêmero.

140 caracteres.

“Querem saber?” pensou ela.

Deixa quieto.

Bar da Felicidade

Esses dias eu fui à um bar diferente dos que eu estava costumado a frequentar. Era um bar que servia felicidade. Ficava perto da Rua das Tentações, era no centro da cidade. Chegando na porta duas pessoas vieram me receber, me abraçaram como se fôssemos amigos de longa data. Eles me convidaram para entrar como alguém que convida para sua própria residência. Disseram que qualquer coisa que eu pedisse seria livre de qualquer custo.

Era um bar leve. Leve como essas coisas menos densas que o ar.

Eu estava em um bar, eu tinha que beber. Eu sabia que lá servia felicidade, mas por um momento fiquei inibido de pedir por um copo. Fiquei com medo de não gostar. Pedi o que já conhecia, uma dose de frustração. As pessoas ao meu redor não reprimiram minha escolha, mas insistiram que eu experimentasse a tal da felicidade. Pois bem, aceitei.

Bebi e fiquei leve. Leve como o bar.

Eu só devia ter maneirado. Eu não sabia que o bar da Felicidade não fechava e saí antes das 3h, como faria em qualquer outro bar. Estava bêbado e feliz.

Cruzei a rua da Saudade, entrei no bairro do Pranto. No meio da Rua da Confusão eu parei e quis voltar. Fui atropelado por um ônibus que rumava a região da Tristeza. Era longe do bar da Felicidade. Fui levado ao Pronto Socorro dos Desolados.

No acidente eu quebrei meu coração. Entrei no coma da solidão.

Torto

Um poço de medo
Uma caixa vazia
Um coração carregado
Dum fardo que não se via

Alguém obsoleto
Quem diria
Que aquele menino desajeitado
Era gauche e nem sabia

Talvez ainda não saiba
Descreve sem fazer
Faz sem querer
Inconsequente ser

Um poço de insegurança
Uma caixa rasgada
Um coração desolado
Uma escolha errada

Aquele menino que era torto
Caiu no chão e se deixou

Perdi o ar respirando sua fumaça de julgo, deixei de sorrir pra chorar sua perdição.
Por um dia, um segundo ou sua fração, cala tua boca, fecha teus olhos, livra-te do teu peso.
Pega minhas mãos, anda comigo. Anda comigo neste jardim. Neste jardim colorido, abundante em calmaria. Sente minhas árvores, colhe meus frutos de salvação. Alimenta-te do amor. Do amor de correr e deixar.
Deixar.
Deixa ser. Deixa teus olhos fitarem e não julgarem. Deixa teus pensamentos não se ocuparem com o ócio que corrói. Com eles reflete.
Reflete sobre a dor.
Reflete o amor.
Ama e esquece aquele julgo que enlouquece.
Toma banho nesse rio de paz. Ah, rapaz, faz da tua companhia o teu momento de prazer.
Agora eu solto as tuas mãos.
Caminha, explora, que eu preciso de ar. Preciso respirar.