Análise do Filme Mentes Perigosas (1995)

Me lembro como se fosse hoje o lançamento desse filme! Eu tinha dois anos e achei muito bem trabalhado o tema educação nesse filme. Brincadeira de lado, eu realmente me lembro da Gangsta’s Paradise, música que é a cara do filme. ❤

        [nigga] How about this jacket? [/nigga]

Educação é um conceito incalculavelmente grande e, por vezes, complexo. Mas nem por tal complexidade deixamos de debater sobre conceitos teóricos e práticas educacionais. Esses debates, historicamente, têm ido além de sala de aula em cursos que inevitavelmente estudam educação. Prova disso é o filme Mentes Perigosas (Dangerous Minds), de 1995.

O filme metaforiza e exemplifica alguns dramas vividos pelo educador. Não é preciso ser um cinéfilo para entender que a escola passa por momentos de crise, e crise significa mudança, dinamismo.

O filme começa a se estruturar com a rotulação de alunos e sala de aula. Não há nenhum destaque quanto às “boas salas”, mas o rótulo está extremamente carregado negativamente na sala principal do filme. O filme chama-se Mentes Perigosas, o que ilustra bem a ideia que a escola tem da sala de aula. “Problemáticos” e “rebeldes” são adjetivos usualmente usados para descrever turmas, e tais rótulos são passados aos professores, podendo plantar uma semente de bloqueio ao professor quanto à turma, dificultando o trabalho. O rótulo também traz consequências diretas aos alunos. Em certa parte do filme, um dos alunos diz “a escola não está nem aí com a gente”, quando a professora oferece reforço, recompensa, pela leitura da poesia. Nesse caso é evidente que o rótulo é um fator determinante na desmotivação dos alunos.

As principais críticas encontradas no filme diziam respeito à ruptura do tradicionalismo escolar e a implantação das ideias escolanovistas. Quando pensamos em dialética, a palavra nos remete à palavra diálogo, e o caminho é esse. Na visão da escola autoritária, o conhecimento é unicamente unilateral, no qual o professor detém todo o poder e conhecimento e os alunos estão meramente para receber e usufruir o que o professor, dito educador, tem a oferecer. Tal ideologia é, teoricamente, ultrapassada, mas no contexto cotidiano, parece não afetar tanto as práticas dos educadores, que por vezes recorrem ao autoritarismo para conseguir, ou pelo menos tentar, seus objetivos com a turma, mesmo cientes de que não é o melhor caminho teórico.

Depois de uma tentativa frustrada de ministrar aula, a professora Louanne entra em variabilidade comportamental para conseguir a atenção dos alunos, que até então não faziam a mínima questão de considerar colaborar com a professora. Nessa cena, ela claramente busca conhecer um pouco da vivência de cada um e, intencionalmente ou não, ela percebe uma brecha que os alunos dão, eles se interessam pelo tema apresentado por ela, o caratê.

Tipograficamente analisando, o caratê seria uma boa forma de ganhar atenção dos alunos, mas a questão não é essa. O educador tem que ser sensível à cultura do grupo e à cultura de cada indivíduo dentro do grupo. Em uma sala de maioria masculina e de interesse comum futebol, talvez a abordagem dessa professora tivesse sido diferente. Ao invés de introduzir alguma arte marcial, talvez ela trouxesse a história de alguma equipe, cativando-os, dessa forma. É nisso que consiste a quebra do autoritarismo, na sensibilidade do educador para com os educandos. Por diversas vezes esses papéis estarão confusos, quando o professor aprende com os alunos.

Políticas públicas existem para que, através de análises dos setores da sociedade, sejam estabelecidos benefícios, oportunidades e melhorias no desenvolvimento de tais setores. Acontece que esses projetos nem sempre funcionam da maneira prevista no papel, como se pode observar no filme. Uma das alunas está grávida e por conta disso, será transferida para outro colégio, onde é oferecido um curso voltado para a área de maternidade e administração da casa. O que estabelece o conflito nessa transferência, é que a professora percebe que a aluna tem grande potencial para literatura, então ela descobre que a transferência não é obrigatória, como a direção da escola havia deixado implícito. Políticas públicas, por sua própria natureza, existem para beneficiar quem faz uso direto delas, não para amenizar trabalho de professores e coordenadores. Nesse exemplo é evidente que a escola não queria tomar essa situação para si, não queria assumir a responsabilidade que a ela era incumbida, ao invés disso, usou de políticas públicas para facilitar seu trabalho, desperdiçando um talento fantástico que poderia ser facilmente desenvolvido na aluna.

A questão da gravidez também diz respeito quanto a responsabilidade da escola, no que diz respeito a educação, e não apenas ao ensino teórico. É de encargo da escola se apresentar com caráter mediador de conhecimentos. “Passar o aluno para frente” significa desleixo, abrir mão de uma responsabilidade quase que intrínseca à ideia de escola. O conceito de educação tem que estar bem diferenciado do conceito de escola, mas isso não significa em momento algum que ambos não estejam interligados. Não apenas estão interligados, como também são interdependentes. A escola tem cargo no processo de educação social de cada indivíduo que dela participa.

É claro que vendo o filme eu procuro onde um psicólogo poderia aparecer ali, e esse papel é executado pela Louanne! Nós, (futuros) psicólogos, temos que ser agentes de mudança onde quer que atuemos. Previsão e controle tem que ser nossa meta! E quem detecta os problemas na sala de aula e na estrutura organizacional da escola é a professora. Detectar é apenas um dos passos, mas Louanne se propõe a mudar o que ela avalia como errado, ou mesmo passível de melhoria!

Resumindo, o filme é muito bom! Dá pra ter uma base legal hollywoodiana sobre contextos educacionais e dificuldades dos professores graças ao autoritarismo idiota de superiores que de fato poderiam fornecer melhoria abrupta na educação.

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4 comentários em “Análise do Filme Mentes Perigosas (1995)

  1. Thaíse disse:

    Ótimo texto, ótima análise, bons pontos destacados para reflexão. Falou tudo! Já assistiu “pro dia nascer feliz”? Recomendação do meu professor de psicologia e processos de aprendizagem. É um documentário (ótimo, por sinal) nacional que trata do contexto educacional no Brasil. Aponta os contras da escola nova, a falta de apoio psicológico para professores, além de potenciais desperdiçados pela falta de investimento no sistema de ensino, problemas típicos da adolescência e da pobreza afetando o desempenho escolar, etc. recomendo! =)
    btw, tô devorando seu blog hahah adorei, parabéns. bjs

  2. […] Foi um mês de posts bacanas! Comecei convertendo um texto acadêmico em post, sobre o filme Mentes Perigosas. É um filme antigo e atual (oi?), denuncia problemas institucionais da escola, desinteresse de professores e falta de estratégia com alunos. Super recomendo! [ver post] […]

  3. Leandro Branco disse:

    Gostei da análise parceiro. Acabei de ver o filme e é dah ora mesmo. Outro muito bom é o “Escritores da Liberdade”. Vai mais a fundo ainda no tema educação e como o sistema ignora os alunos problemáticos.

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