Ela era uma garota problemática

Tem coisas que simplesmente estão fora do nosso alcance, temos que deixar acontecer. Misericórdia em momento inoportuno pode resultar em reais estragos na vida de muitas pessoas ao nosso redor.

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Com Helena foi mais ou menos assim. Ela era uma menina problemática.

Seus pais, Milton e Zélia, eram fazendeiros muito amorosos. Milton era amoroso. Era o amor em pessoa, não tinha repertório algum para negar pão a um peregrino desconhecido. Se precisasse, tirava comida de sua boca para alimentar mesmo aqueles que ele sabia que nunca mais veria na vida, nem seus netos veriam os netos dele. Não fazia nada por interesse e sempre que necessário, renunciava todo e qualquer direito para benefício de outrem. Milton tinha motivos para ser assim, perdeu o pai para uma epidemia quando tinha cerca de 12 anos e cuidou e foi cuidado pela sua mãe e seus 11 irmãos, todos homens, até casar-se com Zélia. Sua mãe certamente tinha inúmeros motivos para ser de todas as mulheres, a mais amargurada e sofrida. Ela era viúva em uma sociedade campestre, não tinha força para o trabalho e certamente não se casaria novamente. Mas ela tinha amor, e com amor criou sua família.

Seus onze filhos cresceram, casaram-se e deram-se em casamento. Uns tinham o espírito mais aventureiro e debandaram-se para outras terras, em busca de conhecimentos e deleites. Outros estabeleceram-se em ramos aceitáveis no campo. Milton tomou conta de sua mãe até seu leito de morte, depois tomou conta da pequena terra que ela deixara ao morrer. Nessa época, ele já era casado com Zélia. Seu sonho sempre foi ter uma filha.

Zélia era guerreira. Não havia nada que estivesse fora do alcance dela, principalmente quando o assunto dizia respeito a sua família. Zélia não foi desejada, não se sabe quantos irmãos e irmãs ela tem, ao todo, são pessoas que se distanciaram, mas têm bom coração, talvez estejam presentes em momentos de grande dificuldade. Apesar de ser fruto do primeiro e único casamento, a mãe de Zélia tentou de tudo para que ela morresse, ainda dentro de seu ventre. Ervas, encantamentos, até mesmo provocou um espancamento, a fim de que acontecesse o “desastre” de um aborto, mas Zélia, guerreira desde feto, sobreviveu a tudo sem sequela alguma. Aquele dito popular “o que não mata, fortalece”, talvez tenha certo sentido. Tendo idade hábil para formar uma família, casou-se com Milton. Seu sonho sempre foi ter uma filha.

Carlos era o primogênito. Difícil definir sua personalidade com apenas uma palavra, ele era extrovertido, tinha bom relacionamento com todos, era um líder natural onde estava. Sua inteligência parecia conveniente, pois em diversos momentos oscilava, dando lugar para uma tremenda infantilidade. Carlos era trabalhador, não havia como não ser. No momento, sua família não estava na melhor fase, eram tempos difíceis, as distribuições de terra já não eram mais igualitárias, grandes produtores estavam monopolizando poder e era inevitável. Era questão de tempo para que Milton tivesse que vender sua propriedade e passar a trabalhar para alguém maior.

Oito anos mais novo, havia o pequeno José. Era frágil, seu nascimento foi custoso, seu crescimento e desenvolvimento seguia uma linha tênue entre vida e morte. Contudo, transmitia paz em cada atitude. Ele tinha o amor do pai em seus olhos e tinha que ter a garra da mãe para manter-se vivo.

Entre Carlos e José, o sonho de Milton e Zélia ganhou vida. Nasceu a desejada Helena.

Helena era uma menina problemática.

Quatro anos mais nova que Carlos, quatro anos mais velha que José, Helena nasceu em um berço de ouro. Não no sentido de riqueza material, mas sim no sentido de que tinha tudo para ela ser de todas, a mais almejada como pessoa para se ter por perto. Helena era querida e quista, seus cabelos eram pretos, e à medida que os raios do sol neles refletiam todos ao redor se encantavam com seu brilho e seu balanço. Suas vestimentas eram graciosas! Zélia era muito habilidosa para a confecção de roupas, e era ainda mais dedicada quando eram para sua pequena princesa.

Helena sempre foi privilegiada pela vida, enquanto ainda criança, sua mãe tinha uma relação muito boa com as freiras do pequeno vilarejo, e como não era surpresa alguma, a aceitação de Helena no meio delas era muito boa, tanto que teve a oportunidade de receber educação escolar, coisa que não havia na família.

Helena era uma privilegiada problemática.

Como todo conto de fadas, depois de um começo lindo, sempre tem um desenvolvimento conflituoso, por vezes contraditório e sem explicação aparente, Helena desvirtuou-se em todas as maneiras possíveis no lugar e na época. Não se sabe que tipo de imensurável buraco ela tinha no lugar de seu coração, mas conforme crescia, por onde passava, deixava rastros de destruição, de amargura e de sofrimento. O que fazia resultava em desgraça hedionda, suas mãos eram podres para qualquer serviço, sua presença tornava-se repugnada a medida com que ela era conhecida.

Seus irmãos logo deram rumo na vida, mas Helena não. Aos 13 anos ela já era responsável pela destruição de poucos casamentos, já não havia mais honra nenhuma sobre ela. Pouco tempo depois ela deu a luz ao seu primeiro, de três, filho.

Helena foi era uma mãe problemática.

Milton e Zélia receberam-no como se fosse de sua própria germinação. Helena não tomava consciência de seus atos. Largou a rara oportunidade dos estudos e sumiu durante alguns anos. Foi motivo de grande sofrimento para seus pais e seus irmãos, que diariamente cogitavam sobre seu paradeiro. Informações eram precárias na época, mais fácil era se acostumar com a ideia de ela ter morrido de forma rápida e acidental, e não de fome ou assassinada.

Passaram-se três anos e seus familiares já seguiam a vida como ela deveria ser, quando Helena voltou. Encontrava-se suja, magra e muito abatida. Ela foi acolhida por todos, foi cuidada sem mágoa nem rancor, a dor que causara a seus pais já não era mais considerada. O perdão reinou ali.

Mais uma vez Helena estava sendo ricamente presenteada pelas circunstâncias da vida, mas aquele controverso sentimento que tinha simplesmente não a deixava aquietar-se. A cada pôr-do-sol, não havia a certeza do pão na mesa no dia seguinte, mas havia a certeza de que Helena traria mais preocupações.

Helena era uma filha problemática.

Envolvia-se com constantes bebedeiras, orgias desregradas, destruição de famílias. Ela descontava toda sua desilusão em seus pais, que, misericordiosos demais para desagradarem-na, aguentavam quietos todo e qualquer tipo de humilhação recebida por parte dela.

À medida que a situação tornava-se cada vez mais insuportável, Zélia fazia de tudo para trazer a filha ao que era antes, procurando incessantemente meios de fazê-la perceber o estrago que vinha fazendo com ela e com sua família. Mas toda vez Helena ameaçava pegar tudo que tinha e sumir novamente, desta vez com seus filhos.

Era o trunfo perfeito. Helena levava a vida que queria, e quando confrontada pela família, usava a possibilidade de sumir no mundo para fazer com que seus pais recuassem com qualquer ideia de ajuda.

Milton já se sentia impotente quanto à sua filha. Para evitar discórdias sempre culpava sua esposa, dizendo que ela não tinha sabedoria para tratar a filha deles. Ele preferia calar-se e apanhar. Zélia ainda relutou por vários anos, ela achava que conversando faria a filha melhorar, mas a situação ficou insustentável. Eles decidiram deixar Helena ir, se assim fosse a vontade dela. Para a surpresa deles, Helena não foi.

Helena era uma pessoa problemática.

Ela era manipuladora, sempre conseguia tudo o que queria. Ela não queria sumir no mundo, ela não queria responsabilizar-se por seus filhos, pela sua vida. Ela queria fazer todos sofrerem, então ela foi além do que jamais tinha ido.

Num dia desses casuais, de extremo desespero e confusão, Helena ameaçou se jogar de um penhasco. Dizia que seus pais não a compreendiam, dizia que eles não entendiam o que ela estava passando. Ela alegava estar sozinha no mundo, alegava que já não adiantava mais viver, que ela era um peso na vida de todos e que a única solução para todos era sua morte. Milton não sabia como lidar, nunca soube. Zélia foi quem a impediu forçadamente. Ao se jogar, Zélia segurou muito fortemente sua mão e a trouxe de volta. Zélia salva, pela primeira e última vez, a filha da morte.

Três dias depois, Helena esfaqueou seu pai, sua mãe e seus filhos. Tentou matar-se logo em seguida, mas sem sucesso. Helena já estava há tempos morta, mas ninguém quis perceber.

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3 comentários em “Ela era uma garota problemática

  1. Acho que eu conheço uma história parecida com essa..

  2. Luii Thelonious disse:

    Mui bem feita, e o fim é interessante XD

  3. […] Aparentemente Junho começou triste, rendendo “Ela era uma garota problemática”. [ver post] […]

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