Considerações sobre Dexter e o Senso Comum.

Este texto teve, basicamente, sua base em um artigo que você pode ler clicando aqui.

A Profa. Dra. Danielle Ramos Brasiliense, ao começar a preparar sua tese de doutorado, escreveu esse artigo para, dentre outras coisas, servir de material de apoio para a tese em questão, cujo tema é parricídio.

“Mas Dexter não matou seu pai. O que ele tem a ver com parricídio?” É nessa questão que a autora inteligentemente desenvolve sua série de argumentações sobre a relação entre os tabus sociais e a crescente audiência de Dexter!

Brasiliense começa citando Freud.  Quem já me conhece, deve ter imaginado a minha cara de tédio e o desânimo para continuar lendo o texto, mas persisti, já que as citações do autor psicanalista se limitaram a mostrar-se de caráter unicamente descritivos, num ponto de vista que se aproxime de uma antropologia social. Sem aqueles devaneios envolvendo inconsciente coletivo e pulsões como explicação para comportamento humano. Nesse ponto, a autora estabelece a definição de tabu, descrevendo como “tudo o que um sistema social traduz como sagrado, proibido de ser tocado, ou alterado”. Aí então, começa-se a ser configurada a proximidade da ideia de Dexter com a de parricídio.

Quem de nós não se viu intimamente ligado ao personagem pela ambiguidade proposta pela série da ShowTime? Quem de nós nunca sentiu que temos um Dark Passenger para chamar de nosso? A autora mostra que, mesmo tratando-se de tabus, a série consegue andar nessa linha tênue entre aceitação e total negação da sociedade. Caso contrário, a série não estaria indo para a sétima temporada frequentemente registrando recordes de audiência.

            Já que vocês repudiaram tanto quanto eu propus a discussão sobre Dexter ser um monstro “aprendido” lá no Dexter Brasil, aqui vão umas palavras de uma, na época, mestre, terminando seu doutorado: “(Dexter) é um típico monstruoso moldado pelos ensinamentos do pai, cujo poder é soberano, e isso revela a força imaginária deste lugar sagrado que não pode ser de modo algum destruído.” A partir dessa citação, temos, então, a ideia de um tabu construído. Uma ideia de ordem familiar unicamente na visão do nosso serial killer. B.F. Skinner tem uma frase que encanta não só a mim, mas a praticamente todos que tem simpatia com o pensamento Comportamentalista, “nunca tenha verdades eternas”, sendo assim, não seria muito sensato pensar em tabus como de característica coletiva. Existem tabus individuais, e a série trabalha muito bem isso mostrando algumas “incoerências” de Dexter, na visão do senso comum. Quando digo tabus individuais, refiro-me a uma ordem pessoal. No caso de Dexter, isso se aplicaria considerando Harry como seu sistema social, que dita o que é certo e o que é errado.

Mas como nós aceitamos tais incoerências em Dexter? A autora sugere que “esses crimes, além de chocarem a moral construída por tabus, despertam a ideia de proximidade de uma maldade que não só pode aparecer em qualquer ser humano, dentro da sua própria casa, mas também pode ser reconhecida dentro de cada um de nós.” Inevitavelmente nós aceitamos Dexter, nós o acolhemos como se acolhêssemos a nós mesmos, porque na verdade Dexter é uma representação de nós mesmos. Obviamente, essa representação se dá de uma forma diferente para cada um, mas a proposta da série é vivida por cada um de nós no dia-a-dia, quando pensamos de acordo com quem realmente somos e queremos agir, mas falamos o que é socialmente aceitável. É como se nossos pais, que a autoria diria que são reguladores de nossa Ordem, tivessem nos treinado assim como Harry treinou Dexter. Eu vou mais além. O ser humano é um ser filogenético, ontogenético e cultural. Nascemos com uma carga genética que nos dá acesso a um repertório comportamental mínimo, fundamentado em comportamentos reflexos. Em nível ontogenético, quero dizer que temos nossa história de vida, crescemos recebendo constantemente estímulos externos e de uma forma probabilística, formamo-nos de maneiras diferentes. O nível cultural é o que talvez mais seja necessária uma análise mais profunda. Skinner afirma que “os homens agem sobre o mundo, modificando-o e são, por sua vez, modificados pelas consequências de sua ação. Se por acaso o meio se modifica, formas antigas de comportamento desaparecem, enquanto novas consequências produzem novas formas.” Essas palavras dão embasamento para a quebra de tabus como o que a autora cita: “monstros são absolutamente maus, e heróis são completamente bons”.

Dexter é um monstro absolutamente mau, mas também é absolutamente bom, em seu próprio modo, já que seu código contribui para uma limpeza das ruas e ele não mata inocentes.

A autora investiga o fato de vermos com tamanha aceitação as inúmeras mortes provocadas por Dexter. Ela propõe que “esses crimes, além de chocarem a moral construída por tabus, despertam a ideia de proximidade de uma maldade que não só pode aparecer em qualquer ser humano, dentro da sua própria casa, mas também pode ser reconhecida dentro de cada um de nós.” Já repararam que nós temos uma incrível capacidade de aceitação de nós mesmos? Quando Dexter mostra que pode haver um passageiro sombrio dentro de cada um de nós, pronto para ser despertado, nós começamos a aceita-lo e até mesmo defender esse estilo de vida dele.

Para fins de esclarecimento, não estou fazendo apologia ao estilo de vida de Dexter. Vejo o seriado como uma grande metáfora social. Assim como Dexter quebra tabus, nós também quebramos alguns. Assim como, por email, Brasiliense frisa que “A aceitação que falo a respeito do Dexter é sobre ele ser um justiceiro, mesmo criminoso e assassino, ele se comporta como alguém que está fazendo o mal para manter o bem”. Isso significa que a aceitação do público se dá pelo fato de que Dexter, apesar dessas quebras de tabus, ele projeta a Ordem e tem uma justificativa socialmente aceitável e, convenhamos, justa. Não é o caso, por exemplo, de alguém como Suzane Von Richtofen, que também foi citada por email. O caso de Suzane teve uma repercussão diferente no senso comum devido, entre outras variáveis, ao direcionamento do crime. Suzane também foi personagem de quebra de tabus, ao matar os pais, mas não houve justificativa plausível. Foi um crime cruel e que só trouxe o caos. Viva a seleção natural pela ordem moral da sociedade. Não fosse isso, certamente nossa espécie estaria extinta.

Para evitar internalizações desnecessárias e erradas, quando eu digo um passageiro sombrio dentro de cada um de nós, não quero em momento algum tratar isso como uma segunda personalidade. O dualismo que Dexter vive funciona mais como uma divisão didática para que ele possa entender o que ele é. Esses dark passenger “dentro de nós” são quem nós somos. Mas por que eles não se “despertam”? A resposta nós encontramos no ambiente. Não apenas no ambiente atual, mas em uma relação entre o ambiente atual com nossa história relacional com o ambiente no passado. No caso de Dexter, podemos dizer que Harry o criou para matar pessoas, isso foi grande parte do seu ambiente natural. As relações sociais foram postas a ele como um mundo exterior a qual ele não pertencia, assim como a autora propõe “as palavras de Bauman nos permitem refletir sobre a possibilidade de Dexter ter sido treinado a viver no mundo da ordem”. Podemos inferir que Dexter foi treinado para responder de maneira agressiva e assassina quando seu ambiente for semelhante aos ambientes anteriores que foram contíguos às primeiras mortes. Assim, ele vai sentir as mesmas sensações que sentiu anteriormente e também fará as mesmas coisas que fez anteriormente. Ele não vai ser possuído por uma segunda personalidade, vai apenas responder de forma que o ambiente exige. Se ele identificar um assassino, a probabilidade de ele executar seu modus operandi é enorme.

            Ainda na busca de entendimento quanto à Ordem que rege os comportamentos de Dexter, a autora cita a grandiosa vampira pálida. “Lila é o símbolo da contradição […] é a antítese de Rita, sua namorada desde a primeira temporada, que simboliza o mundo cotidiano e normatizador da família.” A doutora relembra alguns efeitos que Lila causou na vida do protagonista, e sua interpretação casa perfeitamente com seus argumentos. Rita é mãe, trabalhadora honesta, fala manso, é loira dos olhos claros (uma metáfora da série, claro. Querendo ou não, uma loira magrinha, meiga e sorridente é o padrão familiar midiático). Já a Lila representa toda a selvageria que podemos expressar. Os instintos sexuais, a falta de vergonha, as atitudes impulsivas e manipulativas… Enfim, vocês conhecem a personagem. A indecisão de Dexter entre as beldades reflete muito bem sua contraditória vida, ao tentar equilibrar o dark passenger e sua vida cotidiana como um cidadão normal. Apesar de a Lila melhor representar quem Dexter internamente é, um romance duradouro entre os dois é improvável, pois representa falta de equilíbrio e caos total! Assim como a autora defende, “ele prefere a ordem, o mundo ideal. E, assim, ele tenta voltar para a vida de Rita e sua família, pois a sensação de limpeza tem a ver com o senso comum.” O público suporta a aparente maldade em Dexter, mas é preciso ser focalizada em uma causa justa, na visão do senso comum.

Concluindo, quando formos pensar em Dexter e na sua relação com o senso comum, procuremos não estabelecer padrões imutáveis. Seria incoerente explicar um comportamento do protagonista argumentando que ele é assim porque é a personalidade dele. Pode parecer sutil a mudança de visão, mas seria mais coerente dizer que a personalidade dele é de tal maneira porque ele se comporta assim. Nas palavras da autora, “é importante pensar as identidades como um fluxo em constante mudança e não como elementos fixos e inertes”. Isso nos dá mais segurança ao tratar de qualquer assunto referente ao personagem, como sua relação com o senso comum. Assim como foi dito que tabus podem ser modificados e até mesmo quebrados, é importante que os idealizadores do personagem continuem atentos a essas mudanças para que o seriado continue andando perfeitamente nessa linha tênue entre paixão arrebatadora e repulsa pela série.

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2 comentários em “Considerações sobre Dexter e o Senso Comum.

  1. Hugo Mariani disse:

    Muito legal as considerações da autora, a série e tão rica que já está gerando artigos de grande nível rsrsrs.

  2. […] “Considerações sobre Dexter e o Senso Comum” tem uma história muito bacana! Eu li um artigo de uma prof. dr. em comunicação social, na qual ela falava sobre Dexter e a mídia. Achei bacana e publiquei uma apresentação do texto, só que antes disso, eu pedi que ela revisasse. Fiquei surpreso e feliz ao ver que ela se disponibilizou prontamente a tirar minhas dúvidas e conversar comigo sobre o tema! [ver post] […]

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