Assertividade é a resposta?

Recentemente meu repertório de comportamento assertivo foi questionado, desde então estou em um conflito interno sobre no que implica ser assertivo, bonzinho, agressivo, autoritário, dentre outros.

Praticando a assertividade, eu diria que “Eu até gostaria de discutir com pessoas sobre o tema, mas a internet me parece muito mais fácil, no momento e eu tenho plena convicção de que não são muitos que teriam vontade de fazer com que a conversa perdurasse de forma produtiva.”

Com certeza isso soa melhor do que dizer que “as pessoas com quem convivo são, quase invariavelmente, burras. Por conta disso eu preferi ler sobre assertividade na internet à conversar com elas”. Também soa mais digno do que falar: “ah, eu procurei na internet porque não queria incomodar ninguém com assuntos possivelmente chatos…”.

Se caso eu comentasse sobre este post com alguém e pedisse para que tal pessoa o lesse, ela poderia recusar sendo assertiva, dizendo que “obrigado pela indicação, Gabriel, mas agora eu estou procurando mais conteúdo de humor na internet, mas vou salvar aqui para eventualmente ler”; poderia recusar sendo agressiva, ao dizer “não tô a fim”; ou poderia simplesmente ler contra sua vontade apenas para me agradar.

Até agora vemos como é bom possuir um repertório para lidar com situações possivelmente aversivas de forma clara, educada e efetiva.

Mas a real questão que trago aqui é a expectativa que agir assertivamente traz.

Com uma rápida olhada no google, dá pra perceber que esse assunto tem sido tratado, erroneamente, com finalidade de conseguir as coisas pacificamente. Ser assertivo é outra coisa.

Ser assertivo não é a fórmula mágica profissional para você ter sucesso no trabalho, como pregam. Tampouco o elemento que faltava para as pessoas te compreenderem. A falha que vejo ao falar sobre asserção é considerarem apenas o emissor da mensagem.

Para que haja comunicação é preciso que haja o emissor, a mensagem e o receptor. Você pode ser categórico, detalhista na descrição da sua opinião e educado, que ainda sim terá inconvenientes ao se comportar assertivamente.

O exemplo que me usaram foi:

Se alguém te perguntar se você gostou da cor da tinta que foi usada na pintura da casa, como você pode dizer que não gostou? Você pode ser agressivo e dizer “Que cor horrível! Não tinha uma cor mais feia na loja?” Ou então você pode dizer “Muito bonita a cor!” e logo ser surpreendido com um “Gostou? Sobrou bastante! Leva para pintar o seu quarto, eu te ajudo!” Então a melhor maneira é ser assertivo: “Olha, você tem o direito de escolher a cor que quiser, mas se fosse eu, preferiria outra cor. Essa não me agrada muito.”

Do jeito que foi abordado fica claro que é melhor ser assertivo. Mas pensando em como a mensagem chegou ao receptor,  convenhamos que é provável que tenha havido frustração, pois ao fazer a pergunta, houve uma expectativa positiva sobre a resposta. Em outras palavras, ser assertivo pode ser interpretado como ser eufêmico. Até porque em momento algum no exemplo, o emissor disse que achava a cor feia, apesar de achar.

Não estou fazendo apologia à mentira, pelo menos não totalmente. Também não estou me posicionando contra ser assertivo, na verdade eu acho importante e necessário que todos tenhamos um bom repertório para lidar com situações aversivas de maneira educada, clara e firme. Até porque, “em geral, o resultado do comportamento assertivo é uma diminuição da ansiedade, relações mais íntimas e significativas, maior respeito a si mesmo e melhor adaptação social.”

Meu ponto é questionar essa assertividade fundamentalista, honestidade eventualmente desnecessária. Habilidade social também implica em certa maleabilidade ao lidar com situações que, caso você seja sincero (ou assertivo), causará desconforto na relação.

Ao ver o desenho de uma criança, por exemplo, o mais conveniente seria você ser eufêmico “que lindo seu desenho!”; agressivo “ridículo!”; ou assertivo “vejo que você se esforçou, mas eu não achei bonito seu desenho, desculpa.”?

Será que sempre precisamos ter o compromisso com a “verdade”?

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Um comentário em “Assertividade é a resposta?

  1. […] Em processo psicoterápico e em um momento de revolta, falei um pouco sobre a mistificação da assertividade. [ver post] […]

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