A Utopia Iluminada – Parte 1

Meu nome é 3.875.042, mas costumo ser chamado de 42, apenas. Questão de facilitar, sabe? Ninguém tem paciência para falar “Oi três milhões, oitocentos e setenta e cinco mil e quarenta e dois, tudo bem?”. Sem contar que não é um número muito simples de ser gravado. Ainda bem que temos tatuagens para sermos identificados.

3 é como minha nação é conhecida. 875 é a minha família e 42 foi estabelecido pela ordem de nascença. Não tenho o conhecimento histórico que queria ter, eu realmente gostaria de entender o motivo de o sistema de nomenclatura das pessoas ter mudado do alfabeto normal para o sistema numérico. Só sei que quando a gente nasce, somos inevitavelmente registrados num banco de dados mundial.

Tem gente por aí que diz que isso é tudo plano do Grande Mestre. Eu aprendi que não temos direito a ter nomes próprios, porque isso reflete a ganância do homem. Dizem que a criação do nome foi apenas o início do plano que levou milênios e milênios para ser arquitetado por Matmel, que só conheço de nome. Cerca de 90 anos atrás, Matmel completou seu plano de Nova Ordem Mundial, mas caiu por ganância. Fui ensinado que o Grande Mestre o submeteu a eternidade de sofrimento para aprendizagem, e por isso não devemos ser ambiciosos em nada. Quando Matmel se levantou, já havia esquecido de que era apenas mais um filho do Grande Mestre.

Desde então temos passado por uma reestruturação de todas as convenções sociais e instituições formadas por Matmel. Foi ele também que criou dinheiro. Eu tenho uma nota de 20 reais. Meu avô dizia que na época dele, com duas notas dessa eu podia comprar um livro. Livros são aglomerados de papéis que continham histórias para ajudar a gente a imaginar como seriam mundos que não temos a possibilidade de conhecer. Meu avô me ensinou a imaginar.

Eu tenho vontade de ver um livro antigo, mas dizem que Matmel criou a escrita para poder fazer as pessoas lerem seus livros e se rebelarem contra o Grande Mestre. Talvez meu avô tenha lido algum livro que não fosse escrito por Matmel, não sei. Mas não importa mais, os grandes 12 incendiaram todas as bibliotecas públicas e pessoais que existiram. A ação durou seis anos e sete meses, disseram-me. Hoje temos apenas o Liberdade de Mente, um livro bem grande ensinando como viver. Mas isso é pra quem sente falta de ler. Eu e a maioria das pessoas preferimos aprender pela televisão, os ensinamentos são os mesmos.

Os 12 nos salvaram também do exército seguidor de Matmel. Estima-se que o genocídio chegou em 6,7 bilhões de servos. Ensinaram-me a ser grato por isso. Hoje, no mundo, beiramos meio bilhão de pessoas, dizem que é a população ideal para reconstruirmos um novo mundo de paz, harmonia e equilíbrio.

Eu acredito, mas não vejo paz até agora. Não temos guerras, nem brigas, nem disputas políticas, mas certamente também não temos paz.

Apenas solidão.

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Um comentário em “A Utopia Iluminada – Parte 1

  1. […] contos, comecei a escrever um, que foi dividido em algumas partes, porém, nunca terminei… [ver parte 1 / ver parte […]

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