Onde Vivem Os Monstros

Por que assistir Onde Vivem os Monstros?

O texto contém spoilers do filme.

Eu me arrisco a dizer que o filme é para um grupo seleto de pessoas.

Where the wild things are, demanda uma carga enorme de sentimentos para ser assistido com excelência. As descrições metódicas das técnicas cinematográficas não seriam suficientes, as interpretações das imagens não seriam o bastante.

É um filme para ver e ser sentido.

O protagonista, Max, vive uma criança solitária. Contrariando convenções sociais de que solidão se dá por ausência física, apenas, o garoto mostra nas primeiras cenas do filme ter um bom repertório comportamental em situações com bastantes pessoas, normal para qualquer criança da mesma idade. Contudo, Max é um garoto particularmente carente, que demanda mais atenção do que de fato tem acesso.

Tal sentimento é expresso de várias maneiras. Na falta de experiência para lidar com a carência, os comportamentos de Max variam entre agressivos e profundamente tristes.

Numa noite estranha, após um desentendimento com a mãe, motivado pela culpa por tê-la mordido e também pelas duras palavras da mesma, o solitário Max corre incessantemente.

Longe dali, não necessariamente considerando espaço físico, o protagonista se depara com um mundo novo, onde ele logo é proclamado rei. Aí então o filme começa a demandar cada resquício de sentimento que há dentro da gente, ao conhecermos os monstros sobre os quais Max governa.

Ira, o amável narigudo.

Ira é marido de Judith. Talvez isso explique sua tristeza estampada em sua fisionomia, posteriormente confirmada por outros comportamentos.

Refletindo sobre o que Max tem a ver com Ira, eu diria que é o sentimento de impotência para mudar algo. Seu relacionamento com Judith talvez diga algo sobre isso, já que ela parece ser autoritária e com certeza é muito energética.

Talvez seja triste por que sei nariz é muito grande.

Não sei.

Este é o Alexander. Este bode cabisbaixo representa os sentimentos mais puros de carência que Max sentia.

O que mais em encantou em Alexander foi sua passividade. Ele parecia ser alheio às situações, mas era extremamente observador. Tanto que foi o primeiro a perceber que Max não era um rei em sua terra, como havia afirmado. “You’re not really a king, are you?”

Reafirmando sua passividade, ao expor que sabia que Max não era rei, ele mostrou-se estar bem com a mentira do garoto. Seu medo era que Carol descobrisse. Apesar de gritar sua carência através de expressões corporais e faceais, Alexander subjugava-se a fim de que o equilíbrio entre todos e o clima de paz e alegria permanecesse soberano, mesmo que isso significasse ele sofrer calado por estar vivendo embasado em uma mentira.

Alexander tudo aguentava, tudo observava.

The Bull, o grande touro melancólico.

Se não em engano, o touro teve apenas uma fala, que foi no final do filme.

Sua constante distância de Max e dos demais monstros demonstrava certa incompatibilidade com seus “semelhantes”.

Por algum motivo ele simplesmente não se encaixava. Aquele mundo não pertencia a ele.

Algo não deixava ele compartilhar plenamente das alegrias, confusões, brincadeiras e discussões. The Bull limitava-se a ser um participante sem pretensão de qualquer notoriedade dentro do grupo.

Representa a solidão, mesmo em convívio social, que Max vivia diariamente, sendo exemplificado pela cena em que ele apenas observa a irmã saindo com seus amigos, enquanto ele ficava parado na neve.

Judith, a agressiva. “Happiness is not always the best way to be happy.”

Sabe aquelas birras do Max?

Sabe a gritaria, a desobediência? Judith desempenha o papel de reflexão do que Max era, boa parte do seu tempo em casa.

Algumas cenas como a de ele removendo o gelo de sua roupa sobre a cama de sua irmã e a de ele subido na mesa de jantar, sabendo que isso deixava sua mãe envergonhada, por conta da presença de seu namorado. (Aliás, onde está o pai de Max?)

Judith por vezes se mostra pessimista e incrivelmente consegue encontrar uma falha e um defeito em tudo. Seus comportamentos são basicamente esquiva de situações possivelmente aversivas.

Douglas era o amigo. “Will you keep out all the sadness?”

Talvez a sua aparência tenha sido pensando nessas características que desempenha… ele parece menos monstro e mais animal domesticável que qualquer um dos outros amigos de Max.

Douglas era brincalhão, mas também era sensato. Sabia que havia hora de brincar e hora de parar, sabia identificar confusão antes de ela acontecer.

Sua maior preocupação era que Max, como rei, afastasse toda solidão e tristeza que havia na ilha. ):

Ele também tem poucas falas, mas dá para perceber que nele se pode confiar.

(eu segurei muito para não chorar quando ele brigou com Carol)

Carol se mostrou o monstro mais complexo desenvolvido ao longo do filme.

Ele evidenciava os comportamentos mais primitivos de Max. Ele tinha de tudo, era agressivo, carente, amigo (o melhor de Max, por sinal) e buscava inadvertidamente em quem se apoiar. Queria alguém para poder se jogar de cabeça, confiar incondicionalmente.

Acredito que Carol é quase uma representação exata de Max, enquanto os outros monstros são representações isoladas de cada padrão comportamental do garoto, servindo de ajuda para entender a si mesmo.

Carol tem uma relação muito única com KW.

KW não faz parte dos demais monstros, ela foi embora. Talvez isso represente a ausência de sua mãe, pois KW é também muito acolhedora!

Acho que a cena que melhor pontua isso, considerando Carol como uma imagem de Max e KW como uma imagem de sua mãe, é quando Carol descobre que Max não era rei e o procura. Descontrolado, ele poderia ferir -e até mesmo matar- Max, e KW esconde o garoto dentro dela. Ela praticamente incorporou Max, protegendo de Carol, protegendo “de si mesmo”.

Em suma, o filme é muito rico e emocionante.

Vale a pena separar 1h40min para se encantar com a obra.

Até a próxima!

Anúncios

3 comentários em “Onde Vivem Os Monstros

  1. Genial interpretação. Eu senti tudo isso ao assistir o filme, porém não conseguia me expressar ao aconselhar para meus amigos ou até mesmo explicar para aqueles que não entenderam. Então, parabéns!

  2. […] Filme lindo, emocionante e que (impressionantemente) mexeu bastante comigo. Onde Vivem Os Monstros! Também foi a minha crítica no filmow. [ver post] […]

  3. Pedro Grazi disse:

    Acho que a figura de Max como Rei tem a ver com o “Rei Bebê de Freud”. Cada monstro é um sentimento, e realmente todos podemos ser engolidos, comidos por nossos sentimentos, KW eu não vejo como a mãe de Max não, vejo como mais um sentimento de Max um lado bom que as vezes quer ir embora e as vezes quer ficar e que Max não conhecia. Numa linguagem corporal O Bufalo – : vida instintiva e vegetativa; Águia (Douglas) – cabeça: vida mental (intelectual e espiritual)
    Complemento:
    http://www.revistacontemporanea.org.br/site/wp-content/artigos/artigo221.pdf
    http://www.recantodasletras.com.br/resenhasdelivros/2556472

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s