Duro como pedra

Pedro cresceu em um ambiente ambivalente. Sua mãe prezava os estudos, seu pai, os conhecimentos empíricos. Quando ainda estava aprendendo a diferença entre fingir e mentir, sua mãe faleceu. Como mais um garoto que tinha preguiça de pensar, de refletir sobre novos conhecimentos e investir em seu crescimento intelectual, Pedro seguiu os passos do pai.

Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.

O pai de Pedro era um sapateiro muito habilidoso. A profissão perdurava gerações, Pedro apenas dava continuidade com aquilo que já era de conhecimento de seu pai, do pai de seu pai e de algumas gerações antes disso. Era o ramo da família. A mãe de Pedro vislumbrava um ramo diferente, pois a profissão vinha perdendo o prestígio que tinha. Já não havia mais romantismo algum em prestigiar um bom trabalho feito à mão por um simples sapateiro. Já não havia reconhecimento do conhecimento passado de geração em geração. A mãe de Pedro via claramente a iminente extinção da profissão. Mas não.

Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.

O pai de Pedro apostava sua vida na profissão, afinal, era o que havia aprendido de seu pai e do pai de seu pai. Costumava acordar cedo para passar o dia todo lidando com couro e cola. Com a morte de seu pai, Pedro assumiu e não abria mão de seu trabalho como sapateiro. Embora tivesse enorme habilidade com as palavras, característica herdada de sua mãe, o invariável rapaz insistia em continuar como sapateiro.

Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.

Era uma época de grande avanço industrial. Os alcances tecnológicos alavancaram como nunca anteriormente previstos. Grandes magnatas anônimos dominavam o país, a elitização da produção imperava em todos os centros comerciais. Relojoeiros, sapateiros, caneteiros e muitos outros profissionais que não tinham grande expressão intelectual para conseguir um emprego de prestígio tiveram que se submeter ao trabalho industrial. Mas não.

Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.

Pedro tinha o legado de seu pai e de gerações anteriores à dele. Não era algo que Pedro admitiria jogar fora. Ele acreditava piamente que mantendo seu esforço, ele conseguiria se destacar no ramo. Não era homem de ir contra seus princípios, o que ele aprendera, levaria até a morte. Pedro contra as indústrias. Pedro contra o início de uma era de globalização. Acreditava nos conhecimentos populares que herdou dos antigos, desconsiderava todo conhecimento atualizado que emergia.

Pedro casou-se e teve três filhos. O primeiro morreu de fome, os dois mais novos aprenderam a se virar sozinhos.

Hoje Pedro beira a morte, possuí menos de dez clientes fieis. Seus ganhos não são suficientes nem para pôr comida em sua boca e na da sua esposa. Seus filhos remanescentes são criminosos. Nada muito grandioso, um furto aqui, um latrocínio ali. E assim sua família teve condições financeiras de sobreviver. Poderia ter sido diferente, mas não.

Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.

Não furou.

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Um comentário em “Duro como pedra

  1. […] Uma crítica a certas auto regras que nos são ensinadas e que deveriam ser melhor pensadas, contei a história de Pedro. [ver post] […]

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