Utopicotidiano

Eu acordo regularmente às 5h15, faço meu chá mate, como um diminuto pedaço de pão seco e vou à academia. Depois de cerca de 1h30 de exercício eu estou novamente em casa. Tomo meu banho gelado, coloco minha mochila nas costas e vou para a faculdade. Dou monitoria pela manhã, almoço no restaurante universitário (R.U.) e depois tenho aula até às 21h. Chego em casa e ainda dá tempo de eu tomar banho, jantar, assistir a um episódio de algum seriado bacana e de dar uma olhada no que está acontecendo na internet. 

Adoro os finais de semana! São os dias que eu, quase que invariavelmente, desligo-me de tudo o que me enche a cabeça durante a semana. Mesmo que eu entre em desespero na Segunda e sinta remorso por não ter “aproveitado melhor” o final de semana, eu continuo separando o Sábado e o Domingo para ler, jogar games antigos, rever algum filme, me encontrar com alguma mulher.

Segunda-Feira começa tudo novamente. E assim sucessivamente, até que o descanso eterno me poupe do peso das relações humanas, me cubra com o prezado silêncio eterno.

Nunca pesquisei sobre os idealizadores da marca Matte Leão, não sei nem se estão vivos ainda, não sei o nome deles, nem a religião, posição política, nem nada. Mas isso nunca me impediu de tomar meu glorioso mate gelado logo pela manhã.

Academia, ah academia! Lá é meu real despertador. Eu não acordo para o dia enquanto não tremo, suo e sinto dor ao fazer algum exercício físico intenso. Não vou mentir, é custoso sair da cama e me arrumar para correr alguns poucos quilômetros para chegar na academia, mas o treino compensa. Entro mudo, saio calado. Satisfeito, renovado.

Com disposição sobre-humana eu não me importo de adentrar àqueles ônibus lotados, que te fazem sentir como uma sardinha enlatada, ou então em uma reunião familiar em uma sauna no Japão. Não me importo, a esse ponto seguramente estou escutando boas músicas (no fone de ouvido, é claro, não quero incomodar ninguém). Na monitoria eu tiro dúvidas dos alunos, ajudo a formular provas, trabalhos e calendários. É realmente gratificante. As pessoas não me procuram muito, mas quando me procuram, fico feliz em ajudar.

As aulas são ótimas, as teorias mentalistas, as que abominavam a ciência e as intuitivas foram abolidas da Psicologia. Hoje meu curso é limpo de toda impureza, todo conteúdo torpe que impedia o crescimento do estudo do ser humano. A Idade das Trevas na Psicologia no Brasil enfim acabou. Hoje vemos um crescimento absurdo da psicologia científica e isso me deixa muito feliz. Minha futura profissão é curiosa. As pessoas criam um vínculo terapêutico muito interessante. Muitos se sentem intimamente ligados ao terapeuta, mas depois de uma alta, vivem a vida como se nem tivessem conhecido o psicólogo.

Meus seriados são ótimos! O ano todo tem episódios novos das mais variadas séries. Assisto, depois me esqueço delas. Há quem prefira as obras ficcionais destinadas a retratar a vida como ela é, eu já prefiro para realizar meus desejos inalcançáveis. Na ficção eu posso ser um serial killer apaixonado, um insone surtado, ou até mesmo um jornalista possuidor de um poema capaz de matar o ouvinte. Eu posso ser quem eu quiser. Eu posso ser amigo do rei, posso ter a mulher que quero, na cama que escolherei.

A internet é o tudo nadificado, é o nada globalizado. As distrações proporcionadas pela twitsfera são magníficas, as informações descartáveis, os constantes follows e unfollows, a rotatividade de amizades e a ligação interpessoal tão profunda quanto uma banheira de bebê. Isso me agrada, isso me completa.

Vivo minha vida com todos, sem ninguém.

A corrida pela plenitude de vida é o que mais deixa as lacunas emocionais impreenchíveis. A necessidade de ligação com outro ser humano é o que nos faz esquecer de quem nós somos. A solidão só existe porque achamos inconcebível a ideia de falta de ligação humana. A minha rotina é cheia de pessoas descartáveis, diminutos refis de satisfação temporária. A minha vida é linda e livre de esperança e frustrações. Luto pelo que realmente importa, vivo por mim e por mais ninguém.

No final das contas, vão-se os anéis e as alianças, mas os dedos sempre permanecem.

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Esta entrada foi postada em Contos.

3 comentários em “Utopicotidiano

  1. Jackeline disse:

    Isso é o fim de um relacionamento (cmg)?

  2. […] Yo soy rebelde! Mentira, mas talvez um pouco inconformado. Não sei como mudar as coisas, mas sei como elas poderiam ser! [ver post] […]

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