J.D.

“Tá tudo bem.”

Essa era a frase mais falada de John Doe. Ele era um rapaz exemplar. Foi ensinado a ser assim, todos esperavam que ele fosse assim. Ele nunca entendeu por que é chamado de John Doe. Sabe… ele é brasileiro.

“Tudo bem, eu me acostumo.”

J.D., como era desconhecido, era um garoto diferente. Gostava das bandas de rock basante famosas, que ninguém conhecia. Lia best sellers que não eram modinha. Adorava filmes que estouravam nas bilheterias e, diferentemente de ninguém, ele sabia tudo sobre esses filmes!

“Tudo bem, as unhas crescem de novo.”

J.D. sabia escutar. Como ninguém, ele era um adorador do silêncio. Essa conduta era frequentemente elogiada em diversas situações e severamente punida em outras situações. Ele nunca soube lidar com essa discrepância de opiniões sobre seu modo de agir -ou de não agir. Na dúvida, permanecia calado. Ele era um calmônomo. Um barulhófobo.

“Tudo bem, as paredes não sentem dor e eventualmente minha mão vai parar de doer.”

J.D. era dedicado, mas não obtinha sucesso na maioria das suas escolhas. Frustração era um sentimento tão recorrente que ele conhecia muito bem. Era como uma pessoa, só faltava ter CPF. Mas ele não sabia lidar com isso. Ele fazia tudo da maneira mais dedicada que conseguia! Ele foi ensinado assim. Não entendia sua falta de êxito.

“Tudo bem, eu compro outro celular. Esse já estava na hora de jogar fora mesmo.”

Todos sempre o dizem a maneira correta de agir publicamente, mas ninguém nunca o ensinou a lidar com a raiva. J.D. já perdeu o celular, copos, pratos, televisores e até mesmo acabou com seu livro favorito. Sua justificativa desses acessos de raiva era de que “antes em objetos do que em pessoas”.

“Tudo bem sim, e você?”

J.D. respondia que estava tudo bem, mas não porque estava tudo bem, mas era uma forma mecanicista de agir. A maior parte de sua vida era regida por regras, então as consequências de seu comportamento não alteravam a probabilidade de suas futuras ações. Independente do que acontecesse, ele não mudava. Ele era o centro calmo do mundo. O mestre zen.

J.D. cresceu, formou-se, casou-se e teve filhos. Deu uma casa boa para sua família, uma vida tranquila para sua mulher e seus filhos. Depois trabalhou até morrer.

As homenagens em seu enterro eram muitas, mas no discurso, ninguém arriscou-se a tentar interpretar a frase que ele, no leito de morte, pedira para que colocassem em sua lápide.

“Não tá tudo bem. Se meu maior desejo na vida fosse agradar aos outros, nisso eu não teria me frustrado.”

Depois que morreu, ninguém nunca mais soube quem era John Doe.

Aliás, sobre o que é este texto mesmo?

Bom,

deixa pra lá.

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Um comentário em “J.D.

  1. […] Agora com um Zé Ninguém e sua vida frustrada, em prol dos demais. [ver post] […]

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