Vita, vita, blablabla

Se você está lendo, certamente está vivo, mas não se sente vivo, necessariamente.

Viver é como ter aquela vontade de comer você-não-sabe-o-quê. Não é exatamente fome, não é a necessidade de biorregulação, de sobrevivência. Você não precisa repor carboidratos, nem proteína. Na verdade, se puder cortar um pouco de açúcar, melhor! Essa vontade de comer te deixa perdido, você vai à geladeira, não encontra o que quer. Pensa nas possibilidades de delivery, também não encontra nenhuma opção agradável. Talvez você até tenha ideia do que quer da vida, do que quer comer. Uma comida de sal, talvez. Com molho, quem sabe? Um prato que não como há anos, mas qual?

E nesse infinito rol de possibilidades, você acaba curtindo a vontade de comer não-sei-o-que até que isso passe. Até você morrer e servir ao propósito inicial da vida.

Sentir-se vivo é como ter fome. A fome não é uma coisa agradável. Não é comum (pelo menos não em nossa cultura) cultuarmos a fome. Com exceção de pessoas que compartimentalizam a comida, a fim de elencar seus nutrientes e contar suas calorias, a maioria de nós come para aliviar a fome. Matar o que está te matando. A fome. Uma estimulação levemente aversiva que nos faz comer o que tem pela frente, como se não houvesse amanhã. É aquela leve sensação de desconforto que, para se livrar dela, você se move. Em situações mais primitivas, você trabalha a médio prazo, plantando e cultivando o alimento, para que, quando a fome vier, você se preparou para dela se livrar. Você trabalha o mês para colocar arroz na dispensa. Você reza pelo pão de cada dia. Você comemora ganhos na sua vida chamando os queridos para comer.

Sentir-se vivo não é simplesmente viver. É viver com qualidade, viver em movimento. É viver em negação aos prazeres artificiais, é expor-se às situações e sentir na pele, ao invés de cogitar como seria sentir alguma coisa.

Viver é assistir a um documentário sobre as belas águas de Foz do Iguaçu. Sentir-se vivo é estar no limite da vida, em um passeio pelas cataratas do Niágara.

Viver é uma pesquisa bibliográfica. Sentir-se vivo é ser parte da pesquisa.

Viver é ler Clube da Luta. Sentir-se vivo é pedir para que seu amigo te bata o mais forte que ele puder.

A propósito, vou voltar a ler Clube da Luta enquanto ainda não descubro o que estou com vontade de comer.

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Um comentário em “Vita, vita, blablabla

  1. […] Uma reflexão sobre a vida (?). Parece meio idiota agora, falando sobre o texto. Mas eu juro que quando o escrevi, fazia sentido! [ver post] […]

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