Obediência x Ética

Lendo um texto sobre educação, eu encontrei uma frase que me incomodou bastante:

O pensamento é o contrário da obediência. Já a ética é um conjunto de regras facultativas que avaliam o que fazemos, o que dizemos, de acordo com o modo de existência que isso implica. A dimensão ética é da ordem da responsabilidade, da implicação com a vida. (Deleuze, 1992)

No contexto percebe-se que a autora se posiciona contra a implantação de regras nas escolas, pois “nos tranquilizam, pois aniquilam nossas dúvidas, mas impedem simultaneamente qualquer exercício de pensamento” (Vicentin, 1997). Em proposta, a autora diz que o estabelecimento de algum código de ética seria o melhor caminho, pois possibilitam o pensamento do aluno.

Pois bem, confesso que a princípio meu incômodo foi que senti como um convite à desobediência, mas essa não é a questão. Obediência está relacionada a submissão, a aplicar as palavras de outra pessoa, e esse processo realmente não implica necessariamente em pensar nada, apenas seguir regras.

O problema é como a ética foi tratada na frase. A palavra regra implica em método, exatidão, determinação; sendo contradita pela palavra facultativa. Uma regra facultativa seria, então, apenas uma sugestão. No caso da ética, seria uma sugestão de conduta. De qualquer modo, a ética é consequência de um construto simbólico da sociedade. Um conjunto de pensamentos comuns cridos como certos e necessários para determinada finalidade.

Agir eticamente, então, seria o ideal na escola. Contudo, não agir de acordo com a ética, teria consequências semelhantes às da desobediência. Com termos como obediência mecânica, nota-se uma tentativa de fuga do mecanicismo e alcance da liberdade, mas a autora parece não perceber que apesar de apresentar conceitos diferentes, obedecer e agir eticamente exerceriam a mesma função dentro de uma escola, já que a ordem não foi deixada de vista.

Acredito que essa tentativa de fuga do mecanicismo deva gerar sentimentos de liberdade na autora e em quem partilha de visões semelhantes, contudo exerce a função de regras pré-determinadas que devem ser inadvertidamente seguidas. Romper com essas regras éticas implicaria no mínimo na retirada de reforçadores sociais, como a satisfação do professor ao ver a obediência do aluno, e apresentação de estímulos (provavelmente) aversivos, como expor o comportamento antiético e a “correção”. Novamente, não agir eticamente se apresenta como desobediência.

Se há alguma diferença, é no campo simbólico, já que obedecer implica em aderir às palavras de alguém, enquanto agir eticamente, seria “obedecer” uma ideia, algo mais abstrato.

Quero reiterar que o que me incomodou foi a frase e como a ética foi apresentada. Isso não implica em apologia ao autoritarismo nem à obediência mecânica e sem reflexão. Muito menos que não deve haver ética.

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