Anti-Malafaia

Recentemente li A Revolução dos Bichos, de George Orwell e isso me remeteu a essa situação do Silas Malafaia e a psicologia.

Não pretendo falar de toda comunidade dos evangélicos, nem dos psicólogos nem dos homossexuais, pois acho que a discussão já está controversa demais para eu generalizar grupos. Vou apresentar algumas falas divergentes entre si, mas quero frisar que a fala de um psicólogo não representa a ideia da maioria, tampouco a fala de um evangélico representa a comunidade cristã. As falas abaixo foram pegas de psicólogos, estudantes de psicologia e blogueiros em discussões sobre a cassação do CRP do Silas Malafaia.

“Malafaísmo é a doutrina totalitária desenvolvida pelo pastor Silas Malafaia, um evangélico fanático incapaz de dialogar e que pretende impor a todos, de modo tirânico, a sua “verdade” única extraída de uma crença absoluta e que já perdeu, há tempos, o sentido de respeito e humanidade para com os diferentes.”

“Decidi: Enquanto Silas Malafaia for meu colega de profissão, não pago minha anuidade do CRP.”

“Cristianismo seletivo mesmo… Tem gente fazendo “jejum de facebook” nesta quaresma – fico pensando se isso não foi “sugestão das dioceses” … por que não doam alimentos ou algum tempo e trabalham com voluntariado?? É realmente uma falácia…”

“Sério, seguindo a lógica Malafaia, a Al Qaeda tem todo o direito de se manifestar!!!! RS”

“Acredito ser muito preocupante a doutrina utilizada por ele. Claro que ter um filho homossexual é um sofrimento para qualquer família, porém acho também sofrimento para o homossexual não poder pacificamente exercer seu direito de escolha quanto à sua vida privada… Acho bastante preocupante também que, devido ao número de pessoas a que este senhor exerce um poder de persuasão tremendo, sua doutrina possa causar preconceito a um grupo de pessoas que, como disse estão exercendo seus direitos e de forma nenhuma estão fazendo “mal” às outras… A falta de ética em nome de Deus é temerária… Para os religiosos existe a Bíblia, para os “ateus” existe o CÓDIGO CIVIL, PENAL etc…”

As falas acima são de pessoas que, teoricamente, apoiam a liberdade. Em tese, ser contra a homofobia remente a pessoas prol de um mundo livre. Liberdade para escolher com quem se relacionar, liberdade para se expressar, liberdade para ser quem você quiser, sem represálias. Contudo, o que era para ser uma luta pela liberdade, tem se tornado organizações de contra-controle que respondem à intolerância com mais intolerância.

Nesses comentários, somado à busca pela liberdade, vemos a exaltação do ateísmo, ridicularização do cristianismo e de suas práticas, da Al Qaeda e até mesmo uma homofobia disfarçada. Acho que nem o próprio autor reparou a incoerência, ao dizer que ter um filho homossexual é sofrimento para a família.

Volto ao livro.

A Revolução dos Bichos é, originalmente, uma crítica à Revolução Russa, e principalmente como ela ocorreu. O livro conta a história de uma fazenda onde os bichos eram explorados no trabalho, tinham a alimentação racionada e escassa, sofriam pela falta de liberdade. Até que os porcos organizam uma revolução para a expulsão de Jones e a tomada da fazenda.

A ideia era realmente boa.

A revolução é inicialmente pensada pelo porco Major, um grande idealista que visava um mundo de igualdade e liberdade, mas logo que morreu, o porco Bola-de-Neve assumiu, carregando suas ideologias, com uma ou outra modificação. Não demorou para que o porco Napoleão desse o golpe, expulsando Bola-de-Neve e instalando um governo totalitarista, com o apoio de todos os outros animais. Os animais apoiavam o totalitarismo de Napoleão porque não viam dessa forma. Napoleão espalhava mentiras sobre Bola-de-Neve e pervertia os acontecimentos; tinha a sua disposição máximas como “Napoleão sempre está certo” e Os Sete Mandamentos dos Bichos.

7° Mandamento: Todos os animais são iguais.

E o que isso tem a ver com Malafaia?

No decorrer do livro, Napoleão, que um dia esteve entre aqueles que brigaram pela igualdade dos bichos, instalou um totalitarismo e impedia que os outros bichos o questionassem. Espalhava mentiras para licitar a morte dos que o questionaram, mudou os sete mandamentos para justificar seus atos, entre outras artimanhas.

A constituição prevê liberdade de expressão, mas os grupos brigam por liberdade usando a repressão como arma. Eu vejo como Napoleão tomando o poder e minando a liberdade dos outros bichos. A fala dos militantes que eu citei acima não evidenciam um discurso pela liberdade, e sim pelo ódio dos que pensam diferente deles.

Esses dias eu vi um comentário de uma feminista repudiando a mulher que gosta de homem bruto, argumentando que, dessa maneira, ela estava sendo tão machista quanto o homem. Mas o feminismo não era para brigar pela liberdade? Talvez seja doloroso, mas se quisermos pregar a liberdade, temos que estar aptos para aceitar a liberdade de quem não concorda com a prática homossexual; aceitar a liberdade de quem acha que mulher deve cuidar da casa, da criança, apenas; aceitar a liberdade de quem acha que se você pecar, vai para o inferno.

7° Mandamento, após a instalação do regime totalitarista: Todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais que os outros.

Vale a pena deixar claro que liberdade de expressão não implica em liberdade de comportamentos de ódio, agressão física ou verbal. Ninguém é menos que ninguém por ser gay, assim como ninguém é menos que ninguém por ser ateu, ou evangélico, ou mesmo bandido (que foi a comparação que gerou tanto alvoroço entre os que atacam Malafaia pessoalmente). Expressar uma ideia é diferente de fazer segregação. Repudio qualquer ato de violência contra pessoas, seja qual for a motivação.

Posso não concordar que uma família tem que ser necessariamente constituída de homem, mulher e criança, mas defenderei o direito do Malafaia de expressar essa ideia. A liberdade é mais ampla do que aceitar quem concorda com sua opinião.

Meu medo, e motivação para esta postagem, é que no final não saibamos mais distinguir quem briga por liberdade, quem briga pelos próprios interesses. Tenho medo de que a briga por liberdade se torne o estabelecimento de um regime de intolerância com quem pensa diferente, como aconteceu no final do livro, como aconteceu na Rússia.

Os porcos expulsaram Jones, estabeleceram superioridade sobre os outros animais e parceria com aqueles com quem sempre brigaram, os humanos.

“As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco.” (p. 112)

E sim, vou aceitar que você discorde de mim.

Os grupos brigam entre si para ver quem grita mais alto, na busca do silêncio.

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Um comentário em “Anti-Malafaia

  1. “Cristianismo seletivo mesmo… Tem gente fazendo “jejum de facebook” nesta quaresma – fico pensando se isso não foi “sugestão das dioceses” … por que não doam alimentos ou algum tempo e trabalham com voluntariado?? É realmente uma falácia…”

    Falácia é o sujeito não ter a menor ideia do que está falando e se achar “o espertão”. Cada católico (o Malafaia não é católico e nós sabemos que não é “tudo a mesma coisa”) escolhe algum “sacrifício” para fazer durante o tempo de quaresma, tempo em que lembramos dos 40 dias que Jesus passou no deserto, sendo tentado. No tempo em que a pessoa estaria fazendo algo que gosta, como usar o facebook, ela pode se dedicar a orações e reflexão. Isso é o que a diocése recomenda, ninguém diz “olha, tá proibido facebook até a páscoa”. E quanto ao dinheiro: neste mesmo período de quaresma, acontece a campanha da fraternidade, na qual as pessoas também separam uma parte do dinheiro que gastariam com seus divertimentos e fazem doações a projetos, por exemplo, que trabalhem com o tema da campanha do ano atual, neste caso, os jovens.

    To MUITO puta por não ter visto este comentário retardado no grupo quando a discussão ainda estava “quente”.

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