Selft-selft

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Eu estava de fone de ouvido, o que normalmente seria uma forma de dizer que não queria conversa, mas ele ignorou, ele queria muito conversar. Chegou perguntando se a greve de ônibus já tinha acabado. “Até que enfim acabou essa putaria, né?”, disse ele e eu concordei. Sempre concordo com o que estranhos dizem.

“Eu vim aqui na Cidade Alta pra visitar. Nasci aqui, mas agora tô morando bem longe”, disse ele. Não sei como eu me lembro da fala, porque nesse ponto eu só conseguia prestar atenção no cheiro de cachaça dele. “Aquele ônibus que passa pelo Porto é o… Cidade Verde?”, eu respondi que não. Era a linha do Jardim Imperial.

Ele era magro, bem magro. 1,63m de altura talvez. “Eu sou carpinteiro. Aprendi com meu pai.”, continuava ele. Eu desliguei minha música e resolvi dar atenção total a ele, enquanto esperávamos o ônibus.

“Eu morava numa casa aqui, mas pagava duzentos e cinquenta reais pro mês e nada funcionava lá! Nem a descarga… Eu jogava balde com água, mas mesmo assim não funcionava. E eu tinha que pagar todo mês duzentos e cinquenta reais, aí eu tinha um dinheirinho guardado, peguei e dei entrada numa casa. Qué dizê, não é uma caaaasa, mas é uma casinha. Não é nem rebocada, mas é minha.”

Eu já não sentia cheiro de cachaça, eu via os olhos de alguém que batalha por uma vida melhor.

“Eu trabalho aqui perto do Verdão. O salário é ‘maiomenos’, mais eu tava precisando, então tô lá. Acordo 4h30 pra chegar aqui. Pego ônibus até o Centro, de lá pego o 605 e desço lá perto. Lá tem café da manhã. A gente tem direito de comer três pão com mortandela. Aí o ônibus da firma leva a gente pra trabaiá e traz na hora do almoço.”

Ele estava realmente animado com a comida! Eu já havia me esquecido do ônibus. Domingo é um dia de poucos ônibus, principalmente de noite. Sentado, ali no ponto, escutei ele falando da casinha nova dele, de como não era bom nos estudos, da mãe dele que dizia “leva esse menino pra trabaiá”, ouvi histórias dos irmãos dele, que formaram, aprenderam a usar o computador, baixar músicas… Ele achava o máximo encontrar músicas no computador!

“No almoço é… selft selft. Você pode comer à vontade.” e com a mesma intensidade que se mostrava feliz ao falar do selft selft ele murchou ao falar da volta para casa. “Nóis tem que aproveitar, né. Em casa a gente faz uma sopinha. Melhor comer uma sopinha do que dormir com a barriga com fome, não é? Incrusive eu já devia estar em casa pra cuidar de lá, já me roubaram o gás duas vezes. Roubaram meu sonzinho também, não consegui comprar outro até agora. Imagina, rapaz, tive que comprar dois gás! Mas tá bom.”

Nisso, o ônibus já se aproximava. Se alguém me perguntasse, eu diria que preferia ter um carro para poder ir onde eu quisesse, mas não teria a oportunidade de conhecer histórias assim. Casuais. Simples. Reais. Então não vou reclamar do tempo de espera do ônibus, afinal, melhor comer uma sopinha do que dormir com a barriga com fome, não é?

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3 comentários em “Selft-selft

  1. Tâmara Lessa disse:

    Também escuto cada história em ponto de ônibus… Adoro ouvir. Adoro as histórias da vida das pessoas, as diferenças de pensamentos, de cultura, do modo de viver… Amei o texto!

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