Sem vírgula

Respire.

Encha o peito e esvazie-o contando até cinco.

Respire novamente. E novamente.

Não tenha pressa, aproveite para respirar.

Sabe por quê?

Porque as coisas parecem seguir um padrão geral. Por mais que uns nasçam em Rio Branco, outros em Bangkok, outros ainda no interior de Sri Lanka, todos nascemos totalmente dependentes de nossos cuidadores. Nos alimentam, nos dão banho, nos ensinam a andar, falar, de que música gostar e que deus adorar. Se der sorte, aprenderá como caçar, como buscar recursos naturais de sobrevivência. Saberá que animais com pele lisa brilhante costumam ter venenos mortais para nossa raça, saberá que águas mais perto na nascente são mais puras.

Continue respirando.

Recebemos educação, seja em escolas ou em casas. Aprendemos a cuidar de nós mesmos, reproduzimos nossa cultura, com poucas modificações. Nossa cultura parece caminhar para perpetuar práticas de produção em massa, mecanização dos modos de fazer.

Alguns dizem que nascemos bichos, nos tornamos pessoas.

Eu digo que nascemos bichos, nos tornamos robôs.

Mas calma, continue respirando.

Depois que nascemos, aprendemos a estudar, a ter que arrumar um trabalho, aprendemos que temos que formar uma família -homem e mulher-, aprendemos que Sexta e Sábado não podemos ficar em casa de noite, nem Domingo, que é o dia de igreja. Nos ensinam a reproduzirmos nossa cultura.

Em um dia típico acordamos mais cedo que ontem tomamos um banho rápido e passamos para comer alguma coisa em algum lugar que não em casa porque não temos tempo de prepararmos nosso café da manhã e então vamos ao trabalho mexer com papelada com burocracia deixamos de almoçar porque precisamos fazer hora extra para pagar o silicone que ninguém vai ver e o carro do ano e também para comprar aquela nova linha de celulares para que assim possamos deixar em cima da mesa dos restaurantes caros que vamos com pessoas que não gostamos aos fins de semana apesar de que preferiríamos estar dormindo.

E quando percebemos, ensinaram-nos a parar de respirar. Se percebermos.

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3 comentários em “Sem vírgula

  1. Tâmara Lessa disse:

    Ótimo texto! talvez o melhor que tenha escrito dentre o que li… Concordo plenamente quando diz que nascemos bichos e nos tornamos robôs. Infelizmente nos ensinaram a viver de forma automática através das regras já impostas desde antes do nosso nascimento. E a maioria nem percebe isso… E como já dizia Oscar Wilde: “Viver é a coisa mais rara do do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”.

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