As cores do oceano

Jorge sabia das coisas.

Ele era de cidade grande, não conhecia o mar. Digo, é claro que já contaram pra ele como é o mar. Ele sabia que era uma imensidão azul. Jorge sabia que o mar não se resumia a baleias e tubarões. Peixes abissais e conteúdos históricos submersos eram componentes do mar. O que chamamos de mar, dizia Jorge, na verdade é oceano. Até isso ele sabia. Não sabia dizer se um gosto em sua boca era azedo ou amargo, mas sabia a diferença entre em mar e um oceano.

Jorge sabia das coisas.

Jorge sabia que os grandes do oceano eram os tubarões brancos. Não eram os maiores, mas eram os mais temidos. Com seus 163 cm, Jorge sentia-se impressionado em imaginar um animal com 7 m.  Os tubarões brancos, Jorge afirmava, gostam de luz, por isso a gente sabe deles, mas entre a luz e a escuridão, existe um universo inteiro a se descobrir.

De repente, Jorge já não sabia mais de tanta coisa assim.

Ele cresceu, formou-se em biologia, dispunha de internet e já visitou inúmeras bibliotecas no mundo. Ele apenas não se conformava. Não pertencia. Uma das coisas de que falava apaixonadamente era da capacidade de peixes que vivem na zona abissal têm a capacidade de produzir uma luz fria. Um tipo de combustão diferente do que a gente conhece daqui de cima.

Jorge queria saber das coisas.

O vasto azul, como ensinaram para ele, já não era mais azul. Ele dizia que azul era a cor que não era absorvida nos oceanos. A imensidão, na verdade, é composta de água transparente. Conforme a luz não consegue penetrar a água, as cores vão se esvanecendo. A última é a azul, é a que sobrevive, portanto se sobressai. Jorge não gostava disso. As pessoas achavam um discurso um tanto ilógico e sem sentido, mas ele dizia que não é justo com as outras cores apenas o azul ter destaque, simplesmente por perdurar por mais tempo. Ele dizia que o mar era uma cor própria.

Ele adorava saber das coisas.

Escafandros e submarinos não chegavam perto de satisfazer sua curiosidade. Às vezes ele comentava que a pressão exercida no fundo do mar era para afastar quem não merece saber o que tem lá. Quem quisesse saber, que fosse lá. Que descobrisse. Que merecesse. Ele mereceu.

Tudo o que a academia, a pesquisa e o trabalho o ofereciam era insuficiente. Algumas espécies de tubarão de luz, como chamava aqueles que vivem mais perto da superfície, tiveram menos de 40 espécimes catalogadas. O que ele estaria perdendo? O que ele poderia descobrir? Ficar com essas perguntas para si era insuportável, ele precisava procurar respostas. Respostas que tecnologia alguma podia dar.

Então ele nadou.

Foi ver por si.

O que ele descobriu? Só indo lá pra ver.

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