Contrato

O pai de Cláudio tem casa própria. A irmã de Cláudio recentemente comprou um carro. Os amigos de Cláudio trabalham. Uns em empresa privada, outros em órgãos públicos. Pessoas que Cláudio nem conhece estabelecem relações no mundo firmadas em contrato.

Cláudio nunca havia pensado sobre a importância de um contrato. Se alguém o perguntasse, em poucos segundos ele certamente diria que o contrato é um dispositivo burocrático que substitui a confiança cega por um sistema de controle coercitivo. Isto é, no caso de quebra de contrato, haverá uma penalidade para a parte que optar por descumprir o combinado.
Mesmo sem refletir sobre a finalidade de um contrato, Cláudio trabalha com carteira assinada, tem bens financiados, já contratou empresas e serviços para os mais diversos assuntos cotidianos. Nunca teve problema com isso.
Há três anos ele se mudou para longe da família. Trabalhava com desenvolvimento de softwares, basicamente em casa. Tinha duas reuniões semanais na empresa e vez ou outra tinha que visitar clientes. Sua dedicação era louvável, seu desempenho era invejável. A pessoa com quem Cláudio mais tinha contato era com a Linda, que trabalhava para ele.
Linda limpava seu apartamento, lavava e passa suas roupas, coisa simples. Nem almoço fazia. Cláudio era fã de porcarias que se compra em qualquer drive-thru. Por 18h semanais Linda ganhava um salário mínimo e vale transporte. Para além do contato, ganhava plano de saúde para ela e sua filha. Já fora socorrida por Cláudio quando precisou quitar algumas dívidas, outras vezes quando precisou de transporte urgente Cláudio prontamente a atendeu. Quando o ex marido de Linda morreu, ela viajou para o enterro. Cláudio cuidou de sua filha.
Apesar de poucos amigos, Cláudio era um otimista quanto às relações sociais. Sempre que podia era generoso para com os outros.
Seu trabalho, sua alimentação e alguns fatores genéticos, no entanto, não foram muito generosos com a saúde de Cláudio.
Num dia desses, que não era dia da Linda ir à sua casa, Cláudio sentiu fortes dores no peito. Sem muitas opções e no desespero, ligou para sua contratada para pedir ajuda. Linda estava na casa da sua vizinha, disse que não atenderia ao telefone, porque não era dia de trabalhar. Não estava em seu contato.
O dia seguinte foi desesperador para Linda. Cláudio havia morrido com o celular na mão. Não precisou de muitos segundos para ela entender o porquê de ele ter ligado para ela.
Linda estava confusa. Não sabia se sentia-se arrependida, culpada, ou outra coisa. Ela confortava-se incessantemente pensando “não era dia de trabalho, eu não tinha que atender ao meu patrão”. Não estava combinado.
Não era sua função.
Cláudio se fudeu.

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