Carta aberta ao Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública

Este texto é em resposta à Carta aberta ao Fantástico e ao Dr. Dráuzio Varella sobre a série Autismo: Universo Particular.

O Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública (MPASP) tem estado na luta para esclarecer vários equívocos midiáticos e no SUS, bem como apresentar o trabalho da psicanálise com autismo. Neste texto, coisas importantes como pensar no comportamento dos pais para com os filhos, afastar-se de qualquer prática segregacionista e também “viabilizar os modos singulares de ser das pessoas com autismo” (trecho do texto). São assuntos extremamente importantes e eu fico feliz em vê-los sendo tratados, principalmente por estudiosos de uma teoria que estuda, basicamente, os processos “intrapsíquicos”. Processos muitas vezes reducionistas e que levam equívocos que demoram a serem esclarecidos, como tratar o autismo como um transtorno puramente emocional, cuja responsável é a imago materna, que não soube dar afeto de maneira apropriada. A famosa “mãe geladeira”.

O que eu não fico feliz é com afrontas infundadas. O MPASP frequentemente fala sobre equipe multidisciplinar, mas sempre ataca diretamente a “terapia comportamental”, dizendo que “não resolve”. Neste texto não foi diferente.

Eu entendo que alguns psicanalistas estejam alarmados com o desenvolvimento da Análise do Comportamento e com a cultura de uma ciência natural do ser humano crescendo no Brasil. Entendo também que isso tem reflexos diretos no mercado de trabalho, mas dizer que a Análise do Comportamento é ineficaz, ou tratar como “relações sociais” um campo estritamente psicanalítico é uma ignorância ou desonestidade intelectual grave, para um movimento que quer requerer seu espaço numa equipe multidisciplinar e na saúde pública. Sobre ser “ineficaz”, é interessante que a comunidade de analistas do comportamento prezam por estudos com o máximo de pessoas possível, usando um método bem estipulado e considerando o máximo de variáveis em jogo na pesquisa, enquanto o texto trata de “inúmeras experiências clínicas de inclusão bem-sucedidas”.

Eu acompanho o blog justamente para ver a visão de quem, teoricamente, entende de verdade de psicanálise, para correr menos risco de sair por aí falando besteira sobre uma área que não estudo com tanto gás.

Espero que não seja novidade para vocês, mas analistas do comportamento têm um trabalho bonito, cujos efeitos vão além de “modificar o comportamento da criança”. Mais do que fazer a criança fazer o que se pede, a Análise do Comportamento ensina autonomia, afetividade, formas eficientes de se comportar.

Apoio esse esforço de vocês, mas tomem cuidado para que esse movimento não seja um desserviço à Análise do Comportamento.

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