Cavoli riscaldati

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“Tem alguém aí?” – Ele me perguntava.

Eu escutei apenas na última vez que ele me chamou. Ele havia me chamado seis vezes antes de eu atendê-lo. Eu estava assim há um tempo.

Eu não sei dizer quando isso começou, exatamente. Ultimamente eu tenho me esquecido muito das coisas. Eu sei que isso foi como hiperglicemia. Ou como câncer. Vem quietinho e quando se manifesta é porque já se estabeleceu. Já destruiu tudo que poderia de maneira sorrateira. Assim foi comigo.

Eu jogava tênis e meditava. Voluntariamente dava aulas de música e estava começando a estudar uma quarta língua. Apesar de pouco tempo, eu conseguia manter tudo isso e mais o final da faculdade. Eu pensava em coisas utópicas, queria carregar o mundo. Eu estava no último ano de Belas Artes e meu projeto final era trabalhar com arte e cultura com crianças em situação de rua. E eu era bom nisso.

Eu era um copo cheio. Um otimista.

Eu já fazia planos de me casar também. Morar junto, pelo menos. Começar uma vida fora da família original. Já estava com a mesma pessoa desde antes de entrar na faculdade. Estava ficando cada vez mais difícil de esconder da minha família. Meu irmão já sabia e não se importava. Homossexualidade sempre foi um tabu lá em casa. Meu pai aceitava “mas não queria isso para o filho dele”. Mas contanto que não estivesse claro para todo mundo que eu era gay, estava tudo bem, meus pais não falavam nada para mim.

Eu tinha um bom relacionamento com a vida.

Hoje eu me sinto o Jean-Dominique Bauby virado ao contrário.

Ainda me sinto animado para fazer algumas coisas, como dormir. Todos os dias eu tenho acordado como quem tem febre. Acordo no calor e com vontade de não existir. Houve uma época em que eu pedia que Sexta-feira chegasse logo, porque rapidamente eu me cansava do trabalho e da faculdade. Agora eu não sei o que é pior, já que em casa as coisas pioraram.

Tem alguns meses que não consigo ler um livro.

Tem alguns meses que não encontro uma boa música.

Filmes? Não tenho mais saco para procurar coisas novas.

O Guilherme, meu namorado, percebe de perto tudo isso. Ele se sente impotente e cobra de mim que eu o ajude a me ajudar. E eu não quero. Eu não consigo.

Eu não consigo mais jogar tênis. Não tem muito tempo que eu fumo, mas meu pulmão já não responde mais como antigamente. Eu ando sem fôlego. Eu domino três idiomas mas já não tenho a mínima vontade de me comunicar. As “belas artes” perderam o encanto. Sinto-me incapaz de fazer algo pelas crianças que costumava ajudar. Não consigo mais falar para o Guilherme que eu o amo. Não consigo mais voltar para casa, não consigo sair de casa.

Não consigo.

Eu parei no tempo, parei de me importar, parei de me comunicar, de querer, de desejar, de sentir tesão pela vida.

Talvez eu não tenha respondido aos primeiros “tem alguém aí?” porque não sabia a resposta.

Jean-Dominique Bauby perdeu o movimento voluntário do corpo todo, com exceção dos olhos, mas ele nunca enxergou tudo tão claramente quando tinha tudo. Eu, por outro lado, sou capaz de ir à faculdade, ir ao trabalho, de comer sozinho, de tomar banho sozinho.

Sou capaz de falar, só não quero me comunicar.

Sou capaz de ouvir, mas eu quero o silêncio.

Eu sou capaz de andar, só não consigo achar um rumo.

Cansei.

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