Considerações póstumas

Só depois de olhar para aquela cama vazia pôde perceber que ela nunca fora usada. Olhou para o guarda roupas e vira que suas roupas ainda tinham etiquetas, embora estivessem empoeiradas e com furos feitos por traças.
Saiu do quarto e passou pela sala, onde vira seu próprio corpo sendo decomposto no sofá. Ignorou, afirmando para si mesmo tratar-se de uma alucinação visual, e continuou seu caminho até a cozinha. Abriu a geladeira e ela estava vazia. Não conseguia se lembrar quando foi a última vez que comprara comida.
Passando novamente pela sala, correu para o banheiro, abriu a porta e não suportou o cheiro de mofo daquele lugar. Rapidamente fechou a porta.
Ele voltou à sala. Resolvera ler o que havia nas mãos daquele corpo com expressão melancólica. Era uma carta de amor que recebera. Ele não soube dizer há quanto tempo aquela carta havia sido escrita porque não sabia em que dia estava.
Ele se lembrava daqueles beijos, daqueles abraços. Lembrava-se dos momentos bons, mas também dos momentos de crise. Lembrava-se, entretanto, de coisas que nem aconteceram. Uma espécie de ilusão e esperança. Foi tomado de uma repentina confusão. Não sabia o que havia acontecido.
Havia morrido?
Estava surtando?
Com a carta nas mãos sentou-se ao lado de seu próprio corpo e, lendo-a, pôs-se a chorar.
Resolveu fazer companhia para si mesmo, esperando o remetente daquela carta que ele mesmo escrevera.

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