Bar da Felicidade

Esses dias eu fui à um bar diferente dos que eu estava costumado a frequentar. Era um bar que servia felicidade. Ficava perto da Rua das Tentações, era no centro da cidade. Chegando na porta duas pessoas vieram me receber, me abraçaram como se fôssemos amigos de longa data. Eles me convidaram para entrar como alguém que convida para sua própria residência. Disseram que qualquer coisa que eu pedisse seria livre de qualquer custo.

Era um bar leve. Leve como essas coisas menos densas que o ar.

Eu estava em um bar, eu tinha que beber. Eu sabia que lá servia felicidade, mas por um momento fiquei inibido de pedir por um copo. Fiquei com medo de não gostar. Pedi o que já conhecia, uma dose de frustração. As pessoas ao meu redor não reprimiram minha escolha, mas insistiram que eu experimentasse a tal da felicidade. Pois bem, aceitei.

Bebi e fiquei leve. Leve como o bar.

Eu só devia ter maneirado. Eu não sabia que o bar da Felicidade não fechava e saí antes das 3h, como faria em qualquer outro bar. Estava bêbado e feliz.

Cruzei a rua da Saudade, entrei no bairro do Pranto. No meio da Rua da Confusão eu parei e quis voltar. Fui atropelado por um ônibus que rumava a região da Tristeza. Era longe do bar da Felicidade. Fui levado ao Pronto Socorro dos Desolados.

No acidente eu quebrei meu coração. Entrei no coma da solidão.

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Torto

Um poço de medo
Uma caixa vazia
Um coração carregado
Dum fardo que não se via

Alguém obsoleto
Quem diria
Que aquele menino desajeitado
Era gauche e nem sabia

Talvez ainda não saiba
Descreve sem fazer
Faz sem querer
Inconsequente ser

Um poço de insegurança
Uma caixa rasgada
Um coração desolado
Uma escolha errada

Aquele menino que era torto
Caiu no chão e se deixou

Perdi o ar respirando sua fumaça de julgo, deixei de sorrir pra chorar sua perdição.
Por um dia, um segundo ou sua fração, cala tua boca, fecha teus olhos, livra-te do teu peso.
Pega minhas mãos, anda comigo. Anda comigo neste jardim. Neste jardim colorido, abundante em calmaria. Sente minhas árvores, colhe meus frutos de salvação. Alimenta-te do amor. Do amor de correr e deixar.
Deixar.
Deixa ser. Deixa teus olhos fitarem e não julgarem. Deixa teus pensamentos não se ocuparem com o ócio que corrói. Com eles reflete.
Reflete sobre a dor.
Reflete o amor.
Ama e esquece aquele julgo que enlouquece.
Toma banho nesse rio de paz. Ah, rapaz, faz da tua companhia o teu momento de prazer.
Agora eu solto as tuas mãos.
Caminha, explora, que eu preciso de ar. Preciso respirar.