“Eu tenho um plano.” – disse ela na mesa do bar.

Aquela seria uma noite longa. Um solstício de inverno em pleno verão.

Vamos voltar um pouco.

A vida dela era uma parábola. Um gráfico de aceleração negativa e a linha estava muito próxima do eixo X. Nasceu prematura, faltou oxigênio. Ela sobreviveu, as coisas se ajeitaram. Nunca foi muito dedicada na escola, mas não era nenhum motivo de preocupação. Mantinha algumas amizades, um círculo relativamente estável. Perdia contato com alguma pessoa e conhecia outra. Seus interesses foram variando ao longo da vida.

“Querem saber?” – tomou um gole daquela cerveja barata.

Depois de uma infância complacente ela entrou em uma fase bastante raivosa. Era um sentimento latente, mas que parecia nunca afetar de maneira duradoura a vida dela. Adolescência. Ter um rótulo ajuda bastante a justificar as besteiras que as pessoas fazem.

As pessoas que estavam com ela na mesa respondiam coisas gerais, aquelas frases que funcionam para qualquer situação. Você não precisa realmente entender o que estão te dizendo. A entonação do emissor já sinaliza a resposta com a qual você deve responder para parecer interessado e manter a outra pessoa falando.

Quando você percebe entusiasmo, responde com “nossa!”.

Quando você percebe tristeza, escolhe entre responder condescendentemente com “acontece…”, ou então mostra compaixão com “poxa vida…”.

Quando a história parecer um relato de algo grandioso e engraçado, ri. Ri alto, mas sem demorar muito. Só demora se a história for mais engraçada do que grandiosa.

Segue o protocolo.

Ela percebeu a falta de interesse das pessoas com quem estava.

Ela ia contar de um projeto de extensão que queria desenvolver. Ela tinha 25 anos, estava fazendo doutorado em jornalismo e queria fazer um grupo sobre divulgação científica com alguns alunos de diferentes cursos na faculdade onde estudava.

Alguém na mesa começou a rir bastante. As outras pessoas olharam, na expectativa de uma explicação para a risada. Era algum vídeo, alguma coisa que foi vista em uma dessas redes sociais. Todos da mesa foram marcados na publicação para que pudessem rir juntos.

De repente, todos os seus projetos, seus escritos, suas falas voltaram ao pó. Não era a primeira nem a quinquagésima-terceira vez que a interrompiam. É difícil seguir o protocolo quando a mensagem tem muitas frases ou precisa de atenção verdadeira do receptor.

É mais fácil sugerir outro assunto, algo mais efêmero.

140 caracteres.

“Querem saber?” pensou ela.

Deixa quieto.

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