Texas

E daí?

Abasteci minha moto e peguei a estrada. Pequei na demora, devia ter feito isso há muito tempo, mas quem, além de mim, se importa? Agora eu posso ser um cowboy do espaço, um alienígena no deserto, comer porcarias sem me preocupar com meu colesterol e ultrapassar o limite permitido de velocidade.

Agora eu posso ser abduzido no meio da noite. Tomado pela sensação de calmaria e liberdade. Posso também morrer debaixo de um caminhão de frango.

Mas quem, além de mim, se importa?

Agora eu posso estar no lugar certo e na hora certa para fazer a coisa errada. Posso pegar qualquer estrada e parar em qualquer cidade. Posso deitar em qualquer cama e cuspir em qualquer calçada. Agora eu fumo meu cigarro em qualquer lugar enquanto procuro um café que não seja tão fraco. Eu sinto falta de encontrar café forte, mas quem, além de mim, se importa?

Tudo acaba.

Se eu morrer, eu morrerei com meu wayfarer 50, montado na minha Harley-Davidson Dyna Street Bob customizada. Agora eu não preciso de antidepressivo, joguei fora meu antipsicótico e coloquei meus ansiolíticos no café do cuzão do gerente do meu banco. Agora eu não preciso mais ter conta no banco. Eu até não tinha nada contra o cara, até ele contar que mata cachorros barulhentos na vizinhança. Tudo bem que a vida não é a melhor maneira de tratar um animal, mas isso não dá um direito difuso ao cara.

Agora a Terra é o meu corpo e a minha cabeça está nas estrelas.

Estou tirando férias eternas.

Eu já tinha lido sobre a mulher de Ló, sobrinho de Abraão, personagem bíblico. Ela foi salva da destruição de Sodoma e Gomorra e olhou para trás, transformando-se numa estátua de sal. Ela se arrependeu, eu ainda não. Não olhei para trás. Agora eu sou minha própria Sodoma, minha própria Gomorra.

Quando eu coloquei meu capacete ela estava dançando, eu estava sonhando. Então eu desapareci.

Eu tentei ser bom, mas agora eu me sinto muito melhor. Às vezes a vida é uma droga, então eu desafivelei meu cinto de segurança. Eu deixei ir. Agora eu posso ser o pior que eu conseguir ser. Agora eu posso rezar pela minha vida. Não tenho obrigação de me divertir nem de fazer ninguém rir. Agora eu posso deitar no escuro com meus olhos bem apertos, posso olhar as estrelas e me elevar.

Por mais eternas que sejam essas férias, são só as férias de inverno. Coisas boas não duram tanto.

Foi fácil fazer isso. Foi só abastecer a moto e comprar cigarros, coisa que eu faço todos os dias.

Agora eu posso ser um eterno estranho, não preciso pertencer. Eu queria que alguém tivesse me dito que isso não ia doer.

Eu poderia falar que fiz essa viagem procurando a verdade. Poderia culpar a minha infância, a época que eu assistia a Arquivo X e ouvia no início de todo episódio que “a verdade está lá fora”.

Eu não contei pra ninguém. Eu consigo imaginar o que as pessoas falariam.

“Não faça isso.”

“Você tem muito pela frente.”

“Como pode?”

“Você é tão jovem.”

Sim, sou muito jovem. Tenho a morte inteira pela frente. Ou a vida. Mas quem, além de mim, se importa?

Agora eu posso dar a mão a Lúcifer e quando eu morrer ninguém precisa chorar. Eu não dei tchau, mas eu não sou surdo. Eu estava apenas ignorando todo mundo. Agora, no meu mundo, pode chover todo dia. E se eu dormir, não me acorde. Se eu morrer, não me ressuscite. Eu não preciso disso.

Eu estou indo pro Texas tatuar “w h a t e v e r” no meu dedo médio.

Peguei a estrada, onde não existe Deus nem deus. Agora eu posso ser um ser espiritual em uma experiência humana. Posso ser uma partícula de consciência do cosmos e posso ser nada.

Isso não significa nada. É só uma viagem.

Agora eu posso tirar férias para sempre e eu me importo.

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