Faz uma tatuagem em mim. Esboça um desenho, coloca na minha pele algo que vai me marcar para sempre. Escolhe uma imagem bizarra, algo perturbador, algo que fale de esperança, algo que contradiga o que eu faço.

Só me marca.

Rasga minha pele e coloca a tua tinta, borra a minha pele e deixa cicatriz. Deixa tua rasura na minha história e some.

Esconde minhas pomadas, recomenda-me o sol, estraga minha pele.

Marca-me de uma maneira vadia e descuidada.

Sê coeso.

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Texas

E daí?

Abasteci minha moto e peguei a estrada. Pequei na demora, devia ter feito isso há muito tempo, mas quem, além de mim, se importa? Agora eu posso ser um cowboy do espaço, um alienígena no deserto, comer porcarias sem me preocupar com meu colesterol e ultrapassar o limite permitido de velocidade.

Agora eu posso ser abduzido no meio da noite. Tomado pela sensação de calmaria e liberdade. Posso também morrer debaixo de um caminhão de frango.

Mas quem, além de mim, se importa?

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Duas mãos.
Ele não conseguia se lembrar de como tinha parado naquela situação. Mas faria alguma diferença? Ele sabia que não era aquilo que ele tinha planejado.
Uma parte se despedaçou.
Uma mão.
Ele começou a pensar em coisas positivas. Tinha que ser forte, tinha que dar um jeito de sair de lá. Ainda que ele andasse pelo vale da sombra da morte, não poderia temer mal algum.
Quatro dedos.
Nesse ponto alguns pensamentos de arrependimento turvaram os planos de como sair daquela situação. E seus pais? Sua esposa? O que seria de seus filhos?
Ele não era casado e nem tinha filhos. Ora, qual a razão desses pensamentos, então? Seriam formas de se manter forte? Seria um jeito de se manter motivado a viver?
Sua mão começa a formigar.
Deus! Céu! Inferno? Qualquer coisa para tirar ele daquele lugar. Qualquer pensamento. Qualquer empurrão para a vida.
Mil coisas passaram pela sua cabeça nesses 20 segundos incertos.
E no cume do desespero, uma epifania.
Ele se libertou. Perdeu a esperança. Nada mais o manteria ali, nem mesmo a ilusão de que conseguiria escapar vivo.
Do alto daquele penhasco soltou os dedos restantes.
Voou.

3 horas

É uma espécie de tontura seguida de náuseas, muito enjoo. É a junção de dois mundos. O mundo simbólico e o mundo real. Não que eu acredite em uma realidade absoluta, mas é aquilo que a gente chama de real. É aquele conjunto de fatores que a gente de alguma maneira percebe e que nos diz que algo é uma experiência que pode ser compartilhada com outras pessoas ou não.

Talvez seja apenas um problema de linguagem.

Recorrer a um limbo entre o simbólico e o real é extrapolar a metáfora dicotômica que nos ajuda a entender o mundo. Por que então tal tricotomia?

Às vezes as experiências inexplicáveis pelas quais passamos são tão fortes que as palavras parecem não dar conta.

Talvez seja apenas um problema de linguagem.

Além das sensações físicas, há também as psicológicas. Não que eu acredite na diferenciação entre o físico e o psicológico, mas é aquilo que a gente chama de corpo e mente. São aquelas sensações que você não consegue dizer se está no estômago, no peito ou na cabeça. Aquelas que parece que perpassam todo o seu sistema simpático e parassimpático. Aquelas sensações que doem a medula espinhal, mas ao mesmo tempo você não as encontra. Difícil explicar.

Talvez seja apenas um problema de linguagem.

No campo do que se chama de psicológico parece ser onde há aquele terceiro ponto da tricotomia, aquela pequena fissura entre o real e o simbólico que por vezes se torna tão profunda quanto um buraco negro. É ali que surge a dúvida: será que eu estou sonhando ou isso realmente está acontecendo? Será, ainda, que é uma lembrança vaga?

Não é como pânico, não há sensação de morte.

Não é um surto psicótico, não há delírios nem alucinações.

A gravidade dessa pequena fissura atrai todo o pensamento em uma aceleração gigantesca que faz 15 segundos parecerem 3 horas. 3 horas de desespero, 3 horas de angústia, de enjoo. Aqueles pensamentos que invadem a sua cabeça, trazendo o que ora você acha tratar-se de uma lembrança, ora um sonho, desaparecem sem deixar muitos vestígios.

Se você chegou nesse ponto, é provável que você tenha vomitado.

Escova os dentes e volta a trabalhar.

Quando eu vi a água acabando me deu sede
Quando ela me deixou eu vi que os olhos dela brilhavam com o sol
Quando a cigarro chegou ao fim eu percebi que deveria ter comprado mais
Quando é que eu vou ter uma experiência de quase morte?

Considerações póstumas

Só depois de olhar para aquela cama vazia pôde perceber que ela nunca fora usada. Olhou para o guarda roupas e vira que suas roupas ainda tinham etiquetas, embora estivessem empoeiradas e com furos feitos por traças.
Saiu do quarto e passou pela sala, onde vira seu próprio corpo sendo decomposto no sofá. Ignorou, afirmando para si mesmo tratar-se de uma alucinação visual, e continuou seu caminho até a cozinha. Abriu a geladeira e ela estava vazia. Não conseguia se lembrar quando foi a última vez que comprara comida.
Passando novamente pela sala, correu para o banheiro, abriu a porta e não suportou o cheiro de mofo daquele lugar. Rapidamente fechou a porta.
Ele voltou à sala. Resolvera ler o que havia nas mãos daquele corpo com expressão melancólica. Era uma carta de amor que recebera. Ele não soube dizer há quanto tempo aquela carta havia sido escrita porque não sabia em que dia estava.
Ele se lembrava daqueles beijos, daqueles abraços. Lembrava-se dos momentos bons, mas também dos momentos de crise. Lembrava-se, entretanto, de coisas que nem aconteceram. Uma espécie de ilusão e esperança. Foi tomado de uma repentina confusão. Não sabia o que havia acontecido.
Havia morrido?
Estava surtando?
Com a carta nas mãos sentou-se ao lado de seu próprio corpo e, lendo-a, pôs-se a chorar.
Resolveu fazer companhia para si mesmo, esperando o remetente daquela carta que ele mesmo escrevera.

Sobre criar

Às vezes é difícil superar dicotomias. Eu costumava ter bastante facilidade em criar metáforas em forma de texto escrito. Personagens diferentes, contextos diferentes e histórias diferentes. O que, entretanto, eu não conseguia fazer era explicar esse processo criativo. Eu apenas sentava ma frente do computador e algo fluía em catarse.
O processo criativo dá uma sensação única de mérito, de capacidade. Afinal, você “cria”.
Explicar o que desencadeava essas produções textuais tem sido mais fácil para mim. Sei descrever minhas preferências de leitura, sei dizer com alguma facilidade como aprendi o que eu estava reproduzindo de forma variada e organizada.
Aliás, reproduzir de forma variada e organizada pode ser um bom substituto para o termo “criar”.
Voltando, eu tenho formulado hipóteses a respeito do que leva as pessoas a fazerem o que fazem. Isso inclui pensar e tentar descrever com alguma precisão o que me leva a sentir o que eu sinto, a pensar como eu penso, a falar o que eu falo, a escrever o que eu escrevo.
Cercado em uma dicotomia, eu parei de criar. Parei de reproduzir de forma variada e organizada as coisas que eu tenho aprendido.
Sem insinuar uma relação inversa de proporção entre ser criativo e explicar o processo, entrei em entropia intelectual.
Eu sinto falta da sensação de criar alguma coisa, de produzir, de ser útil.